Apesar do toque de recolher ser restrito apenas aos adolescentes considerados infratores ou integrantes de gangues, a portaria assusta a todos os adolescentes indiscriminadamente. Isso porque a medida foi muito divulgada pela imprensa antes de ser modificada pelo juiz Fábio Muniz. O padeiro A.C.F., 15 anos, por exemplo, deixou de frequentar a roda com os amigos na esquina de casa, embora estivesse em uma boate na madrugada de ontem. ‘‘Eu trabalho o dia inteiro e vou aos bailes para me divertir. Acho errado (a proibição) porque é o único tempo que tenho para me divertir’’, diz ele, sem saber que a norma, depois de modificada, permite que ele saia de casa a qualquer hora, desde que não tenha cometido nenhum ato infracional comprovado.
E comprovar é o mais difícil. Sentados em um banco de uma praça da cidade, os menores J.R., 15 anos, e L.M., 16 anos, faziam tranquilamente um cigarro de maconha, exatamente o que o juiz quer impedir. ‘‘De um lado a lei está certa, mas de outro está errada porque o horário é muito cedo’’, disse J.R., que costuma ficar até a meia-noite fora de casa. Os dois disseram que nunca cometeram nenhum crime e, com a mudança na norma, podem continuar saindo de casa quando desejarem.
É por causa dessa dificuldade em identificar os jovens infratores que a maioria dos pais havia aprovado a norma que proibia todos os adolescentes de sair de casa à noite. O vigia Tomaz de Lima Cardoso, 34 anos, pai de um menino de 12 anos, é um dos moradores que não gostou. ‘‘Era uma forma dos adolescentes obedecerem mais a gente’’, justificou. A proibição, porém, não agradava aos procuradores do Ministério Público do Paraná, que tinham dúvidas sobre a constitucionalidade da portaria. Pelo sim, pelo não, o juiz voltou atrás.

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