Milton DóriaExemploSilvana: ‘Hoje sei que a gente não deve complicar a vida’Silvana Gomes dos Santos fez um pacto com Deus. Pediu para que ele a deixasse viver com o vírus HIV, acordo que é mantido há oito anos. ‘‘Fiz um contrato com Deus: o senhor me dá um tempo. Agora que descobri como a vida é importante eu não posso ir embora’’, conta a diarista de 34 anos.
A identificação do vírus no organismo veio há três anos, quando o marido manifestou a doença e viveu apenas seis meses após a confirmação do diagnóstico. ‘‘Ele se entregou. Começou a beber. Teve remorsos de ter infectado três pessoas. Ele não era como eu. Eu acho que nem tudo está perdido. Não podemos desistir sem lutar’’.
As três pessoas contaminadas foram Silvana e os dois filhos. O primeiro, Lincoln, morreu há cerca de seis anos com um ano e dois meses. Naquela época, o casal não sabia que era portador do HIV e os médicos também não identificaram a doença no garoto. A mãe acredita que ele também foi vítima da Aids porque os problemas do bebê tinham os mesmos sintomas das crianças que ela vê morrer de Aids hoje: pneumonia, diarréia repetitiva, ‘‘sapinho’’, entre outras coisas.
O segundo filho do casal, Adam, tem quatro anos e conseguiu se livrar do vírus porque produziu seus próprios anticorpos. ‘‘Foi um milagre. E olha que eu amamentei durante oito meses. Eu não sabia que era soropositivo’’, lembra Silvana.
Além da dor de perder o marido, a mulher enfrentou o preconceito das ex-patroas que a demitiram e de algumas pessoas do bairro onde mora até hoje, a vila Santa Madalena, na zona oeste de Londrina. ‘‘Eu precisei ter coragem. Quando você vê a sua vida e os seus direitos ameaçados, ou você reage ou você se entrega. Eu optei por reagir.’’
Ela comenta que, na falta do marido, teve que arregaçar as mangas e trabalhar para sustentar o filho. Atualmente, ainda é diarista em uma casa e encontra tempo para fazer palestra em várias cidades do Paraná para falar às mulheres sobre a importância de se prevenir contra o HIV.
‘‘A gente não quer enfiar a camisinha no casamento de ninguém. Mas a gente quer que os casais conversem. Se a mulher tiver alguma dúvida quanto ao comportamento do parceiro, que use a camisinha.’’ Silvana também é uma das idealizadoras do Café Positivo, uma oficina que funciona na Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids para mulheres portadoras do HIV.
Há um ano a diarista recebe o ‘‘coquetel’’ de medicamentos e acredita que a sua saúde é boa. ‘‘Não tive doenças oportunistas e se não controlar a comida meu peso sobe para 200’’, afirma. Isso desmistifica, segundo ela, a idéia de que o portador do HIV é magro e feio.
Foi a partir da doença que Silvana diz que aprendeu o verdadeiro valor da vida. ‘‘Aprendi que a gente não deve complicar a vida. Hoje eu tenho pressa de viver. Valorizo todos os meus dias.’’ No momento, Silvana reconhece que precisa realizar uma tarefa muito importante: ‘‘Estou preparando meu filho para viver sem mim. O importante é que estou tendo tempo de escolher alguém para ficar com meu filho.’’
Silvana deu palestra na última sexta-feira à tarde, no anfiteatro do Hospital Universitário de Londrina. Ela falou a médicos, enfermeiros e pessoas da comunidade que participaram da 1ª Jornada Multiprofissional de Aids. O tema: como viver com o HIV.
(Adriana De Cunto)

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