A diarista Idalina Almeida Paulo, 53 anos, é uma daquelas pessoas que podem dizer sem receio que mudaram a vida de sua família. Ela nunca teve a oportunidade de estudar. Não sabe ler nem escrever. Mas três de seus cinco filhos já estão formados em curso superior, outra está no 3º ano de ciências sociais e um quinto, estimulado pelos irmãos, sonha em retomar os estudos.
Dona Idalina exulta com a realidade de que seus filhos estão tendo acesso a uma chance que ela não teve. ''Para quem estuda, vencer na vida é mais fácil. Quando meus filhos (os três formados) estudavam, tinhas vezes em que eu nem os via, eles chegavam tarde da faculdade. Hoje, estão formados. É muito orgulho, parece um sonho'', comemora a diarista.
Roseli Batista de Oliveira, 34 anos, e João Batista de Oliveira Filho, 32, pegaram seus canudos de graduados em educação física na última sexta-feira, na cerimônia de colação de grau da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Eliane, 23, se formou em secretariado executivo no ano passado, na mesma universidade. Édina, 35, cursa ciências sociais.
Apenas Édson, 28, casado, sem filhos e que trabalha como vigilante, não atingiu o ensino superior, embora sonhe com ele. ''O sucesso dos meus irmãos me motiva. Penso em fazer computação ou educação física'', sonha. Dona Idalina sabe a importância do estudo. Quando criança, em Ribeirão do Pinhal (57 km a oeste de Jacarezinho), não foi matriculada em nenhuma escola porque ''só os filhos homens (de um total de seis irmãos) estudavam''.
No início dos anos 80, quando a família de dona Idalina, que já estava casada, se estabeleceu em Cambé (13 km a oeste de Londrina), o marido foi trabalhar no Mato Grosso. Roseli lembra, com uma risada nervosa, que o pai ''ficou por lá''. A princípio, ele enviava dinheiro para ajudar a família, mas ao longo dos anos a ajuda foi escasseando, o que obrigou os filhos mais velhos a trabalhar.
A necessidade acabou adiando sonhos: Roseli levava jeito para o atletismo e foi obrigada a parar. ''Numa das primeiras aulas no curso (de educação física), tomei um choque: uma professora era uma menina que corria comigo quando eu tinha 11 anos'', afirma ela.
O estopim para que os irmãos mais velhos voltassem aos estudos foi a aprovação de Eliane no vestibular, ainda na metade do 3º ano colegial. Na faculdade, os irmãos percorreram trajetórias que se assemelharam pelas dificuldades. Eliane perdeu muitas aulas no início do curso porque precisava fazer todos os dias o caminho de ida e volta de Arapongas (37 km a oeste de Londrina), onde trabalhava como carteira.
João, casado e com duas crianças pequenas, passou dias vendo os filhos apenas por alguns minutos: pela manhã, trabalhava na Prefeitura de Londrina, à tarde tinha os estágios do curso, e o dia fechava com as aulas na faculdade. ''E ainda éramos mal vistos, porque quando a pessoa tem origem humilde existe a visão de que ela tem que trabalhar para ajudar em casa. Estudar parece bobagem'', aponta Roseli.
Dona Idalina lembra que até mesmo patroas suas lhe disseram que os filhos deveriam apenas trabalhar e largar os estudos. ''Mas eu sempre estimulei para que continuassem na faculdade. Tenho que valorizar isso. Se eu tivesse estudado, minha vida seria muito melhor.''

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