DIAMENTE NO TIBAGI - A busca que atravessa gerações
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de outubro de 2004
Texto: Lúcio Flávio Moura <br>Fotos: Sérgio Ranalli 
A Folha publica esta semana uma série sobre a exploração de diamante nas águas e no entorno do Tibagi, o afluente do Paraná que fornece água potável para vários unicípios
do Estado. Na edição de hoje, personagens de várias gerações contam suas histórias e tentam explicar porque a atividade não acaba, ainda que poucos tenham, de fato, enriquecido nas últimas décadas. A série prossegue nas edições de amanhã e quinta-feira
Tibagi Uma mangueira de borracha de 60 metros acoplada no rosto e na chamada máquina de ar, 30 metros acima, instalada sobre uma balsa. No corpo, um apertado macacão de borracha. Na mão esquerda, outra mangueira, esta ligada a uma bomba de sucção. Na mão direita, uma ferramenta contundente usada para revolver as pedras e facilitar a extração do cascalho do fundo do rio.
A pressão em água profundas e os equipamentos de cerca de 30 quilos tornam os movimentos ao mesmo tempo lentos e vigorosos. O esforço submerso dura de uma a três horas ou ''até o ar acabar''. Durante a tarefa, um risco razoável de grandes pedras se soltarem barranco acima e atingirem a cabeça, as costas e o bocal de respiração do mergulhador. Depois da emersão, tontura e dores nos músculos.
O desafio lembra uma gincana televisiva, mas a atividade é sem audiência. Os mergulhadores do Rio Tibagi vivem sua rotina como se participassem de um jogo, no qual a tensão não é compartilhada com ninguém e onde a cautela é instinto de sobrevivência.
O prêmio desejado é uma pedra de diamante, o mineral que é a matéria-prima do brilhante, ornamento dos mais desejados em uma vitrine de joalheria, aquela que toma o tempo de muita gente sonhadora nos corredores dos shoppings centers.
Mas não é qualquer pedra que justifica o esforço. Depois da sucção e do cascalho em abundância sobre a balsa, começa a apuração, feita com uma peneira e com dois olhos atentos. A expectativa aumenta quando surge em meio a massa de cascalho as chamadas três pedras guias: o rubi, a granada e a campina. Estas pedras sem valor aparente são indícios que o ponto do garimpo ''tem forma'', ou seja, tem potencial para o diamante.
Só que tem diamante ruim e diamante bom, como contam os garimpeiros. Pedras de R$ 50, 100, 200,00 são ''as ruins'' (apelidadas de chibiu) e não são tão incomuns assim, levando-se em conta a capacidade do garimpeiro em exercer a paciência. Apesar de não colocar um sorriso definitivo no rosto destes mergulhadores, são elas, as ''pedras ruins'', que mantém vivo o sonho da fortuna. Com elas, o garimpeiro compra comida para a família e paga suas contas. Vai sobrevivendo.
Tudo à espera do grande momento, dos 20, dos 30, dos 100 quilates (cada quilate equivale a um quinto do grama) brilhando na palma da mão. Uma pedra que valha um carrão, uma casa luxuosa, uma conta bancária de pelo menos seis dígitos, a vida em terra firme, longe das águas barrentas e do oxigênio de máquina.
O verdadeiro objetivo este para poucos, muito poucos é a conquista da tranquilidade que nunca existiu, a definitiva.
''O único futuro do pobre é o garimpo'', diz Sílvio Pedroso, 56 anos, traduzindo o sentimento que avança por gerações nas áreas de garimpo ativo do Tibagi.
Pedroso é filho de Setembrino, célebre garimpeiro de Tibagi, a cidade que é o epicentro da exploração e que um dia foi conhecida como ''A Capital Brasileira do Diamante'', graças aos milhares de garimpeiros, principalmente baianos, que lá aportaram nos anos 30 e 40.
Na época de Setembrino, a vida dos mergulhadores ainda era mais dura e arriscada. Exploravam o fundo do rio usando um escafandro de 90 quilos e subiam à superfície içando sacos de cascalho de até 100 quilos.
Pedroso vive hoje em uma casa modesta em Tibagi, prova de que as exaustivas incursões do pai não foram suficientes para atingir o verdadeiro objetivo. Desde os 10 anos, Pedroso busca os muitos quilates em uma única pedra (quanto mais pesada a pedra, o quilate vai adquirindo mais valor) e ainda não desistiu.
A família do filho de Setembrino procura diamante das duas maneiras possíveis em Tibagi: em manchais (porção de terra que concentra calcário) próximos de riachos espalhados no município, onde o trabalho é menos perigoso mas também menos rentável, opção do pai, e mergulhando no Tibagi, como prefere Denir, um dos filhos. O outro, José, está em Minas Gerais, procurando sua pedra nas águas de Abaeté, outra bacia diamantífera com muitas histórias para contar.
Denir tem 24 anos, estudou até a 7 série do ensino fundamental e diz trabalhar com fé. ''Eu vou achar'', garante. Ele também experimentou os manchais mas desacorçoou diante de tantos fracassos. Hoje se dedica aos mergulhos e sabe como ninguém o sentido da máxima dita em qualquer balsa que flutua no Tibagi: ''O garimpo é um vício''. Sem vacilar, afirma que esta é sua profissão e que a busca da fortuna vai acompanhá-lo nas próximas décadas.
Pedroso tem algumas pedras guardadas e as chuvas constantes (que formam as enxurradas que levam os cascalhos e os diamantes) já fazem ele pensar em se desfazer do patrimônio em pedras, por ele avaliado em cerca de R$ 2 mil. Denir também está parado. Anda conversando nas praças para passar o tempo.
O rio só está próprio para a garimpagem e para o mergulho quando sua vazão está menor. ''Agora é esperar a água baixar'', afirma paciente o jovem garimpeiro, que mergulhou pela primeira vez aos 16 anos e que até hoje tem como sua maior conquista uma pedra de dois quilates, no valor de R$ 1,2 mil. ''Também sou tratorista. Quando a coisa aperta, vou trabalhar na fazenda''.
Denir topa mostrar a reportagem um manchal, próximo ao Arroio Santa Rosa. Foi lá que seu pai perdeu um bom dinheiro junto com um sócio. O prejuízo de R$ 25 mil se refere ao consumo de óleo para tocar a draga e o investimento para a instalação do maquinário. ''Aqui não dá forma. Desistimos'', conta o rapaz, lembrando que um manchal vizinho, já exaurido, teve farta produção e fez a alegria de muitos colegas. No manchal mais recente, o máximo que se pegou foram pequenos diamantes de baixa qualidade.
Após um ano de insucessos, os garimpeiros foram desistindo, até que o manchal ficasse deserto. Os dois buracos na terra clara é um símbolo perfeito de sorte e azar, as palavras que movem os humores de quem ganha a vida na lavra. A história se repete muitas vezes pelo território de Tibagi, onde o mergulho no rio é uma aposta bem mais racional depois de tantos anos de exploração.
O jovem garimpeiro brinca que o cemitério da fazenda onde está o manchal é que deve guardar muitos diamantes e que ele e seus colegas cavaram no lugar errado. Seria mesmo uma jazida a área de uns 100 metros quadrados, quase de puro cascalho, onde estão uma centena de sepulturas de lavradores cercada por um muro baixo? O neto de Setembrino diz que sim e garante que os ossos podem estar misturados às pedras brilhantes. Parece ser uma brincadeira do destino dizendo que a riqueza que um dia moveu Tibagi se foi junto com os mortos.


