DIAMANTES NO TIBAGI - Parte 2 - Na cidade, a riqueza apenas passou


Lúcio Flávio MouraFotos: Sérgio Ranalli Enviados a Tibagi
Lúcio Flávio MouraFotos: Sérgio Ranalli Enviados a Tibagi

Tibagi é uma cidade bucólica. As ruas do centro têm construções do início do século passado. O pavimento em torno da praça da matriz é de paralelepípedo e o tráfego modesto não assusta as crianças que brincam na praça.
O clima, típico dos Campos Gerais, é ameno. As noites são frescas mesmo no verão. Agitação só nos campings distantes da cidade, quando jovens se aventuram a explorar o Cânion do Guartelá, o sexto maior em extensão do mundo e uma das principais atrações naturais do Estado.
Segundo maior município do Estado 3.109 quilômetros quadrados (apenas seis quilômetros quadrados a menos que Guarapuava), Tibagi aproveita suas terras vastas. Tem sua economia baseada na produção de grãos e de madeira de reflorestamento. É exceção no panorama de urbanização acelerada do Estado nos últimos 40 anos.
Quase a metade da população de 19.055 habitantes vive espalhada nas localidades rurais, fator que influência negativamente estatísticas sobre escolaridade e acesso a saúde pública. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) não dá orgulho a nenhuma autoridade.
Os dados de 2003 apontam índice de 0,685 (considerado pelo parâmetro da ONU, desempenho médio superior), muito abaixo de Curitiba (0,856), que ocupa o topo da lista paranaense, e aquém do Brasil (0,766) e do Paraná (0,787).
Números modestos para um município que alcançou sua emancipação política em 1897 (foi desmembrado de Castro). Mais modesto ainda para um município que já ostentou o título de Capital Brasileira do Diamante, nos anos 30, e cujo prédio da Prefeitura é batizado de Palácio do Diamante.
A pedra preciosa, que atraiu cerca de 6 mil garimpeiros, a maioria baianos da Chapada Diamantina, deixou poucas divisas na cidade. Um bate-papo com os mais velhos é o suficiente para explicar o paradoxo. A maior parte dos garimpeiros vivia como ciganos. E como ciganos, ganhavam o dinheiro em um lugar e gastavam no outro.
''Não há nenhuma construção, nenhum traço de riqueza aparente que tenha sido preservada. O que se sabe sobre o auge da lavra está aqui em nosso acervo. O resto da história se foi para a região garimpeira de Minas Gerais e Goiás'', garante Neri Aparecido Assunção, funcionário do Museu Histórico da cidade e uma referência dos tibagianos quando o assunto é a história do município, que surgiu como rota de tropeiros e cujo território abrigou já no século 18 uma mina de ouro, logo exaurida e abandonada.
Os garimpeiros, sempre discretos e com receio de dar declarações, lembram que o grosso do dinheiro da lavra se esvai a partir dos capangueiros (espécie de atravessador) e, principalmente, dos compradores, entre eles poucos paranaenses, muitos paulistas e alguns estrangeiros. ''O dinheiro que fica aqui movimenta pouca coisa: as vendas, o açougue, a loja que vende ferramentas, um pouquinho da construção civil. Os milhões vão para fora'', conta um garimpeiro que não quis se identificar.
Não há estimativa oficial do número de garimpeiros que ainda moram em Tibagi. Com base no número de balsas e nos relatos pela cidade, o número é insignificante em relação a população economicamente ativa. Fala-se que se contam às dezenas. Talvez 30, talvez 50. Se o cálculo abranger o trecho do Tibagi que banha Ortigueira e Telêmaco Borba, o número poderá chegar a 300 homens, levando-se em consideração que são cerca de 20 balsas no Centro-Leste e que em cada uma delas trabalham de 8 a 10 mergulhadores garimpeiros.
Os manchais abrigam o restante do contingente com um número bem reduzido de ''sequeiros'' (garimpeiros que não mergulham), os ''teimosos'' como Sílvio Pedroso e seus colegas, que passam uma semana inteira acampados próximo de alguma água corrente, atrás dos chibius, na visão menos otimista, e das pedras maiores, mais comum em um sonho na cabana do que na peneira de cascalho.
No museu, há fotos históricas dos primeiros mergulhadores. Década de 20, quando o conjunto composto pelo escafandro alcançava 90 quilos e na qual as mortes por esmagamento com pedras serviam para mitificar a atividade, transformando cada garimpeiro em um herói. Nas imagens, aparecem governadores e ministros de Estado observando os ''heróis'' submergindo como se fossem algum animal exótico.
O acervo sobre a garimpagem ocupa lugar nobre no museu. É no salão principal que estão as maiores atrações: um escafandro montado da década de 30, com roupa rústica de borracha até a cintura e um pedaço de mangueira que levava o ar do barranco até as profundezas do rio, em poços de até 35 metros.
Consultando os arquivos do museu, é possível saber por alto uma das histórias mais emblemáticas de quase um século de exploração. Foi durante a Revolução de 30, quando o País se dividiu entre getulistas e constitucionalistas que a cidade conheceu a força de mobilização dos garimpeiros.
Os milhares de baianos que mergulhavam ou se arriscavam nos manchais de Tibagi não se acanharam em terras estranhas. Eles formaram um grupo coeso para defender o ideário do presidente Getúlio Vargas e seu então regime de exceção. A cidade viveu meses de divisão e conflitos. O episódio obrigou a polícia a pedir reforço no efetivo, o que acabou acalmando os ânimos. Na ocasião muitos garimpeiros deixaram a cidade, temendo hostilidade e represália dos nativos. ''A cidade ficou dividida fisicamente e a praça era uma espécie de fronteira de guerra'', conta Neri.
A cultura nordestina também não fincou raízes em Tibagi. São poucos os baianos remanescentes da época. A segunda geração também migrou, especialmente para os grandes centros ou para as regiões cafeeiras do Estado. Tibagi permanece mais paranaense do que nunca. Como os pioneiros, a população continua a saborear os pratos típicos: carne seca esmagada no pilão, bolinho de polvilho e broa de milho.

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