DIAMANTES NO TIBAGI - Garimpo se adapta aos novos tempos
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quarta-feira, 27 de outubro de 2004
Lúcio Flávio MouraFoto: Sérgio Ranalli<br> Enviados a Tibagi 
Primeiro foi o mergulho com capecete de bronze, pesos de 60 quilos nas costas, trabalho manual de ensacar o cascalho e subir a superfície usando a força dos braços. Depois vieram as facilidades das balsas motorizadas e a sucção mecânica do cascalho. Ainda assim estava preservada a função do garimpeiro e o ato de peneirar a terra, usar os olhos treinados para descobrir o brilhante verdadeiro entre tantas pedras.
Já no garimpo concebido no século 21, o mergulho tem os dias contados. Uma espécie de sonda localiza os manchais submersos e a dragagem ocorre sem a ajuda humana. A separação das pedras também é feita por modernos equipamentos. É a aposentadoria das peneiras e a participação dos garimpeiros no faturamento das lavras.
A curitibana Jezzini Pedras Preciosas está em trâmite burocrático para instalar um moderno pólo de extração mecânica em Ortigueira, o que pode gerar investimentos semelhantes em 2005 e encerrar de vez a era romântica do garimpo no Tibagi. Em Lageado Bonito, uma localidade rural de 100 famílias, comenta-se que o investimento será de milhões de reais e que muita gente vai querer trabalhar no pólo, uma possibilidade de aliviar o atraso econômico do município.
As cerca de 20 balsas que estão instaladas em Tibagi, Telêmaco Borba e Ortigueira, entretanto, ainda vão viver sua rotina por muito tempo: revezamento de mergulhadores, conversa animada e partidas de truco nos intervalos dos mergulhos, o temor do bote traiçoeira de uma jararaca, de uma urutu-cruzeiro, de uma cascavel. As reclamações de um dia onde não se prospecta sequer um chibiu.
Em Lajeado Bonito, núcleo que surgiu a partir da busca do diamante na década de 20, não se fala em outra coisa: sai o homem e entra o robô. E os velhos mergulhadores já contam suas histórias como se elas não fossem mais se repetir no futuro. .
Um deles é Pedro Perenhak, 47 anos, que já tomou muita pedrada nas costas, que já teve medo de morrer quando subiu 30 metros com a respiração presa, mas que ainda guarda seu escafandro com carinho está todo amassado de pedradas para a próxima empreitada. Está na expectativa do Tibagi, abarrotado nesta primavera chuvosa, baixar sua vazão para ir ao encontro da sua sonhada pedra de 50 quilates.
Há um ano não pega nada e diz que está cada vez mais difícil trabalhar. Se arrepende de ter sido vítima da lógica dos garimpeiros. ''Quando a gente consegue uma pedra boa gasta com festa, com a mulherada, achando que depois vai conseguir outra. Mas não é assim, né?'' O tempo perdido de Perenhak não deve voltar mais.
Por enquanto, a família Carretero domina a pesquisa e a lavra em 18 balsas no Tibagi. Segundo informações do empresário José Manoel Carretero, a maioria delas foi instalada este ano. Dados obtidos junto ao filho Wesley, garantem que a produção de diamante é crescente. ''Mas 90% é para a indústria e não para a lapidação'', garante.
A visão empresarial é diferente da dos trabalhadores. Manoel afirma que a produção poderia ser maior se não faltasse mão-de-obra com experiência. ''São pouquíssimos garimpeiros da região. Cerca de 95% é do Nordeste. Não é fácil entender este ofício do dia para a noite'', explica.
O empresário reclama que a maioria dos garimpeiros ''importados'' são nômades e às vezes as balsas ficam vazias. Ele diz que cada balsa fatura de R$ 1 mil a 10 mil por mês. Quarenta por cento fica com o garimpeiro e o restante é dividido com um parceiro.
Um dos sócios de Carretero é o vice-prefeito de Tibagi, Artur Ricardo Nolte, 44, o Botina. Ele tem parceria em duas balsas e diz que há dois anos decidiu investir no setor, mas não propriamente pelos motivos econômicos. ''A gente trabalha pela farra'', diz o produtor rural, dono de 600 alqueires dedicados à produção de grãos e que um dia foi ao Tibagi para conhecer como se extrai uma pedra preciosa. Foi e nunca mais quis distância do cascalho. Uma vida estável e muita popularidade, Botina não precisava de nenhum manchal para ser o que é hoje. Então porque entrar em um setor tão instável, que ele próprio considera caro e de retorno lento? ''Me explica uma paixão, que eu te explico o que é o garimpo'', diz, antes de uma gargalhada.


