Se pudesse ter outro nome, a saudade poderia ser eternidade. Que os dicionários não façam conta, mas para os que convivem com o vazio deixado por alguém que partiu, o sentimento é feito desse tempo, que não passa nunca.
Nesta reportagem no Dia de Finados, nenhuma outra palavra, como ''saudade'', consegue se aproximar dos sentimentos, que move milhares de pessoas que visitarão os cemitérios londrinenses, levando flores, velas e homenagens aos mortos.
''A vida é provisória. A matéria é vida. A alma é espírito. Acredito que exista a eternidade. Caso contrário, não acreditaríamos na proteção dos nossos antepassados'', afirma Ideshi Kawabada, 67 anos, que em cada momento de saudade do pai, da mãe e de um irmão, pendura um pouco de gratidão pelos bons exemplos.
Quando a convivência com a falta de alguém é recente, alguns acreditam ser melhor não brigar com o sentimento.
''A gente se apega nas outras coisas que ficam: a família, os netos... São 28 anos de casada, mas penso nele em todos os momentos. Por enquanto não existe nada que não me faça lembrar dele'' avaliou a dona de casa, Sandra Aquino, 47 anos, e há um mês viúva.
A cuidadora de idosos Maria Aparecida Rafael, 55 anos, nas horas vagas limpa túmulos. A morte para ela é algo inerente à própria natureza.
''A morte é coisa da natureza. Deus deixou. Cuido de uma senhora de 80 anos de idade. Ela ficou oito meses na UTI e a oito meses está em casa. Se você der comida para ela, ela come. Se não der não come, não reclama. Tem gente que diz que a gente sofre para pagar alguma coisa. Sei que isso é coisa da natureza. Se fosse assim, ladrão não morria com um tiro. Ficava ali sofrendo. Não é mesmo?''
A mulher diz que com tanto trabalho ainda sobra tempo para pensar na própria morte.
''Ah, a gente pensa né. A gente vai morrer um dia. É ruim ficar sozinho lá pro outro canto. Mas eu também quero morrer como um passarinho. Não quero ficar dando trabalho para ninguém. Quero deitar e amanhecer morta. Não quero me ver morrendo aos poucos'', disse Maria Aparecida, que há 14 anos perdeu o pai.
''O meu pai está com 104 anos'', afirmou, completando em seguida:
''Sim, ele morreu com 90 anos, mas para mim o meu pai ainda está aí. Por isso, continuo a contar os anos. Olha aí, vem chegando mais um'', afirmou a mulher.
Para o cruzeiro do cemitério vão as imagens de santos quebradas, fotografias e os que não têm a lembrança para pendurar na parede da saudade.
''Tenho 31 anos e não conheci a minha mãe, que morreu logo quando nasci. É complicado falar de saudade. Tenho um sentimento mais de perda'', disse a professora Edimara Oliveira Rocha, 31 anos.
Ao contrário de Edimara, quem ainda não olhou os olhos da saudade no rosto da morte, não tem muito o que falar. Só a imaginar...
''Acho que é uma vida nova, que começa para todos nós'', avaliou a vendedora de flores na porta do cemitério, Dayane Barbosa, 19 anos.
A saudade inclui histórias como as de seo Expedito Cláudio, que com 75 anos de idade, conta que perdeu dois filhos jovens em menos de 50 dias.
Sentado ao lado da sepultura de um dos filhos, que morreu em um acidente de moto aos 27 anos, ele olha o sentimento passando mais distante, depois de seis anos de separação, mas não deixa de apertar os olhos para dizer:
''Saudade é duro''.

SERVIÇO
A Acesf aguarda cerca de 150 mil pessoas nos cemitérios de Londrina neste Dia de Finados. As visitações podem ser feitas entre 7 e 18 horas. As pessoas devem tomar alguns cuidados: não deixe vasos com água em cima dos túmulos e preste atenção na colocação das velas para que nenhum acidente aconteça. Para facilitar o fluxo de veículos no Cemitério São Pedro, a CMTU vai fechar a pista da Avenida JK que dá acesso ao portal principal.

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