Dia das Mães é também de tristeza
Dia das Mães é também de tristeza
Mães sem filhos e filhos sem mães fazem força para não se lembrar da data, mas ainda esperam recuperar o que perderam
Mauro Frasson
DramaEliane de Lima Gonçalves, com tênis do filho Éverton, desaparecido há nove anos quando brincava em frente de casa, em Curitiba: Prefiro fingir que o Dia das Mães é um dia como outro qualquer, porque senão a minha tristeza fica ainda maiorTenho saudades
de ouvi-lo me
chamando de mãe,
diz Arlete Caramês
Cristine Pieske
O segundo domingo do mês de maio é, invariavelmente, o dia mais triste do ano para eles. Nos orfanatos e nas casas das famílias de crianças desaparecidas, a comemoração deste dia quase já perdeu o sentido. Ainda assim, meninos e meninas abandonados pelos pais esperam, mais uma vez, receber a visita da mãe para enfim entregar cartinhas e presentes improvisados na escola. Mães que tiveram seus filhos roubados também esperam, e fazem força para não lembrar o quanto gostariam de ser abraçadas hoje. Prefiro fingir que o Dia das Mães é um dia como outro qualquer, porque senão a minha tristeza fica ainda maior, diz a dona de casa Eliane de Lima Gonçalves, mãe do menino Éverton, desaparecido há nove anos, quando tinha quatro anos de idade e brincava em frente de casa, em Curitiba.
A palavra mãe também já causa estranheza aos ouvidos de Arlete Caramês, fundadora do Movimento Nacional de Crianças Desaparecidas e mãe do garoto Guilherme Caramês Tiburcius, desaparecido em 1991. Filho único, nascido quando Arlete já tinha 40 anos, Guilherme era o menino comunicativo e inteligente que enchia a casa de alegria e que ficava irritado se a mãe não estivesse presente nas festas promovidas na escola. Eu ensinei meu menino a gostar de comemorar datas especiais e hoje sinto uma tristeza medonha por saber que ele não está aqui do meu lado, desabafa. Tenho saudades de ouvi-lo me chamando de mãe, diz.
A falta sentida por Eliane e Arlete talvez seja a mesma experimentada pelos irmãos D., de 9 anos, L., de 7 anos e pela menina V., de 8 anos. Filhos de pai desconhecido, maltratados pela mãe e pelo padrasto, eles vivem há dois anos na Morada do Sol, uma instituição de apoio a crianças mantida em Curitiba pela Associação Curitibana de Órfãos da Aids (Acoa), enquanto aguardam para serem adotados. Quando perguntados sobre como é o Dia das Mães para eles, os três adotam um tom introspectivo e sério demais para uma criança. Eu fico muito, muito triste, responde rapidamente D., o irmão mais velho. L. evita o assunto, mas aos poucos revela que chegou a fazer na escola um cartão para entregar à sua mãe. Mas depois eu rasguei tudo, diz, sem precisar explicar por que.
Como para as quase 2 mil crianças que vivem em instituições no Paraná, a presença da mãe é a visão mais aguardada pelos três irmãos, que lembram apenas do cabelo preto, liso e comprido e do rosto não muito bonito que ela tem. Eu queria muito que minha mãe viesse aqui me visitar, mas até hoje ela nunca apareceu, conta L. Se pudesse, eu daria um monte de beijos nela, diz D. V., a mais calada dos três, escolhe os presentes imaginários para o Dia das Mães: uma geladeira e um batom. Mas eu queria mesmo era ir para minha casa, diz ela, que até hoje exibe uma marca na perna causada por uma surra dada com fios de luz pelo padrasto, que em seguida jogou álcool e ateou fogo na menina.
Segundo a psicóloga Lídia Dobrianskyj Weber, especialista em comportamento infantil, a passagem do Dia da Mães longe da família causa mais sofrimento para as crianças abandonadas do que outras datas comemorativas, como o Natal, Páscoa ou aniversário. A mãe, mesmo que adotiva, é um referencial extremamente forte para as crianças, e sua ausência dificilmente consegue ser substituída por atividades recreativas ou brinquedos, afirma.





