Nem só de favelas fazendo pano de fundo a condomínios fechados é alimentada a desigualdade social no Brasil. Hoje, Dia Nacional da Escola, basta ouvir apenas parte das reivindicações de alunos e diretores das redes pública e particular para constatar que as diferenças entre os dois sistemas de ensino vão muito além.
Para ilustrar o contraste cujas causas são difíceis se enumerar somente uma , a Folha ouviu representantes dos dois segmentos, entre alunos e diretoria. Questões como segurança, disciplina e qualidade de ensino deram o tom nas conversas, como a travada com alunas de uma sétima série de um colégio estadual na periferia de Londrina.
''Sentimos falta de aulas de espanhol e informática, pois hoje isso conta muito para arrumar um emprego. Estamos bem atrasados em relação às escolas particulares'', avaliou a estudante Aliane Gomes Quadros, de 15 anos. Para a colega Greice Kelly Leite, 15, a indisciplina consegue ser ainda pior que a falta de algumas matérias, mas ainda não é o principal problema. ''A gente está acostumada a ver polícia na saída, pois sempre tem briga, o pessoal não respeita o fato de estar na escola'', disse. Para a vice-diretora do colégio das meninas, Dirce Alves Pereira, a violência não é privilégio da escola pública o que acontece, conta, é que ''se enfatiza demais esse aspecto''.
Em uma realidade bem diferente, com sistema de monitoração e vigias dentro (à paisana) e fora do prédio, a reivindicação de um grupo de alunas da mesma série, porém de um colégio particular, difere bastante. ''Aqui é disciplina demais, a gente não pode nem amarrar a blusa na cintura ou usar calça de cós baixo. Além disso, deveria ter mais um intervalo entre as aulas'', observou Franciele Thomaz, de 12 anos. A colega Samantha Novaes Vicentin, 12, já acha que deveria haver mais uma atividade extra ''aula de dança'' , além das já ofertadas ginástica rítmica, trampolim, basquete e, ao público de até 4 série, balé.
Para o diretor geral do colégio, Virgílio Tomasetti Jr, a discrepância do sistema público em comparação com o particular está principalmente nas políticas públicas as quais, segundo ele, priorizam a construção de novas unidades escolares em detrimento da manutenção das mesmas e do investimento em pessoal.
Outro ponto fundamental, reforça o diretor, é a rigidez no trato da disciplina. ''Na rede pública existem muitos direitos e poucos deveres, aliados a um excesso de corporativismo que prejudica a qualidade do ensino. Se lá falta um professor, o aluno fica sem aula; aqui, acha-se imediatamente um substituto'', pontuou. Também da opinião do educador, o trabalho de prevenção às atitudes ditas ''indesejáveis'' tem resultados bem mais positivos quando se conta, para isso, com outros profissionais que não somente o professor. ''Psicólogos e conselheiros detectam os problemas interagindo os pais e alunos na escola e impedem que certos problemas aumentem'', explicou.
Mesmo com a disparidade frente a uma carga horária idêntica de 200 dias letivos em ambos os sistemas, o chefe do Núcleo Regional de Ensino (NRE), Rony dos Santos Alves, considera que o momento não é de pessimismo, mas de se pensar a prática pedagógica dentro de sala. ''Hoje o professor convive tanto com ameaça de morte quanto com salário baixo, tudo fruto do entorno social. Mesmo assim, o trabalho com o aluno não pode estar atrelado a essas dificuldades'', finalizou.

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