DIA DA ALFABETIZAÇÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de novembro de 2003
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
''Eu olho a palavra e tento ler em voz alta uma, duas, três vezes. Se não consigo, peço à minha mãe que me ajude''.
''Preciso aprender a ler, pois já passei muita vergonha por não saber. Como sofri dois enfartos e um derrame, então o raciocínio às vezes é meio lerdo. Mas eu não desisto''.
Apesar de diferirem na idade, as alunas Priscilla Machado, de 7 anos, e Lídia Aparecida Barbosa, de 62, têm motivos semelhantes para celebrar este 14 de novembro, data em que se comemora o Dia da Alfabetização. Diferentemente de pelo menos 16 milhões de analfabetos acima dos 15 anos, de todo o País dos quais quase 24 mil estão em Londrina , conforme o mapa divulgado em junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas estão descobrindo um mundo de novas cores em que saber escrever o próprio nome ou decodificar letras aparentemente desconhecidas transforma palavras em frases e estruturas cheias de sentido.
As peculiaridades do processo de alfabetização ficam por conta da forma como essa descoberta ocorre nas diferentes faixas etárias. Segundo a gerente da Educação de Jovens e Adultos (EJA), Elaine Fátima Souza de Carvalho, os resultados com a população adulta são diferentes em razão, principalmente, de ela saber verbalizar melhor seus anseios aliado a uma maior experiência de vida. ''Por outro lado, ele não tem alguém o estimulando ou exigindo a frequentar a escola assim como os pais e outros familiares da criança'', afirmou.
As exceções ficam por conta do casal de aposentados João Olímpio, 70, e Pedra Arles Bueno, 66. Eles são dos primeiros a chegar para a turma de alfabetização do EJA a que vão, todas as noites, na escola municipal José Garcia Villar, na Zona Leste de Londrina. ''Antes eu ia à igreja e não conseguia ler nada'', diz Pedra. ''Agora posso viajar tranquilo que poderei ler as placas de distância entre as cidades sem precisar da ajuda dos outros'', orgulha-se o marido.
Do alto de seus 72 anos, o Dia da Alfabetização também tem um sentido diferente de anos anteriores a Maria Nazaré de Jesus. A letra, ela explica, não é das melhores ''a vista já não ajuda mais'', ri , mas pela finalidade, compensa. ''Escrevo cartas ao meu marido e as coloco no guarda-roupa para ele achá-las'', conta.
A seu modo, Dona Lídia ainda engatinha na leitura e na escrita, mas reconhece: depois de enfrentar tantos problemas de saúde, é uma vitoriosa. ''Quando era criança eu andava até 30 Km para ir à escola. Chegava cansada, não deu para continuar'', lembra. E hoje? ''Para quem não conseguia nem identificar o número da linha de ônibus, acho que venci. Sempre é tempo de recomeçar enquanto se está vivo'', ensina.
Já para os recém-alfabetizados de menos idade, as dificuldades parecem ser mais simples. ''Eu gosto de ler e escrever, só não gosto das palavras grandes'', confessa Priscilla Machado, de 7 anos. Para Murilo Crespan, de 6, ter aprendido a decifrar livros e números será muito bem empregado no futuro. ''Vou trabalhar na fábrica de camisetas do meu pai, então terei que saber continhas para pôr preços nos produtos'', descreve.


