O cenário não é uma sala com poltrona e sofá. E o profissional que irá atendê-lo também não é um estudioso da Psicologia, interessado em fazer uma análise profunda sobre sua vida. Mas em um ponto existe uma semelhança em toda essa história: eles são bons ouvintes.
Os personagens que você vai conhecer agora são profissionais que estão acostumados a atuar no dia a dia como ''psicólogos'' de seus clientes, já que quando eles menos esperam estão dando conselhos, dividindo opiniões ou simplesmente só ouvindo as lamentações de quem precisa desabafar.
A FOLHA conversou com um taxista, uma esteticista e um personal trainer, que na rotina profissional ''esbarram'' com pessoas que os surpreendem com histórias de vida. Como as situações contadas por Adeildo Faria, de 44 anos, que trabalha há 20 a bordo de um táxi. Por dia, ele roda cerca de 200 quilômetros, levando passageiros a todos os destinos.
Ao ser questionado se os clientes se ''abrem'' muito com ele, Adeildo logo responde: ''Tem gente que eu nunca tinha atendido e, ao entrar no carro, já vai desabafando, contando abertamente da vida e dos problemas'', afirma ele, que não se incomoda com as ''sessões'' diárias. ''Além de desabafar as pessoas querem uma ajuda, uma palavra amiga'', completa.
Certa vez, ele deu tantos conselhos que um rapaz acabou desistindo de cometer um crime. Era tarde da noite quando o telefone celular tocou e Adeildo saiu para uma corrida. Ao entrar no carro, o passageiro apontou o destino e mostrou uma arma para Adeildo. ''Antes de eu pensar que era um assalto, ele me disse que estava indo se vingar de um rapaz que havia batido em seu filho. Fiquei assustado e fiz um caminho diferente, para ganhar tempo e tentar convencê-lo a desistir da ideia'', lembra.
Durante todo o percurso, Adeildo, ao volante, escutou toda a história e entre um silêncio e outro procurava ser otimista. ''Eu dizia a ele que não valia a pena, que poderia ser preso e aos poucos fui percebendo que ele começava a se acalmar'', comenta o taxista, que ao chegar no destino, recebeu a ordem que fez com que aquele dia se tornasse especial. ''Ao chegar em frente à residência, ele pediu para eu seguir em frente, pois havia mudado de ideia. Ganhei o dia'', revela.
Quem está acostumado a andar de táxi deve saber que o veículo é um ambiente perfeito para uma conversa. É por isso que Adeildo já sabia o que viria pela frente quando um certo número chamava no celular. ''Era um cara que vivia sozinho e, por isso, não tinha com quem conversar. Ele era extremamente depressivo'', diz.
No caminho, que sempre era sem rumo, o rapaz contava sobre todos os problemas que o afligiam. ''Ele pedia para eu ir andando para que pudesse conversar. Na última vez, fui parar em Ibiporã, de tanto que andei. Isso acontecia uma vez por semana'', revela Adeildo, enquanto procurava o celular para atender outra chamada.
Em todas essas e tantas outras situações vividas dentro do táxi, Adeildo diz que a intenção é sempre escutar primeiro para depois tentar ajudar, convencendo a pessoa a buscar ajuda de um profissional. Mas é justamente nessa hora que percebe o motivo pelo qual muitos desabafam com ele. ''Essas pessoas acabam falando comigo por não existir um vínculo de amizade e tampouco familiar. Tem gente que prefere assim'', finaliza o taxista, que em seguida, parte para outra corrida.

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