Longe das grandes metrópoles é quase que inimaginável a rotina de muitos trabalhadores que enfrentam uma longa jornada no trajeto entre a casa e o trabalho. Entretanto, essa realidade comum às grandes capitais também é vivenciada em cidades de médio porte, como Londrina.
O cansaço evidente é uma característica comum entre aqueles que utilizam diariamente o transporte coletivo urbano e principalmente o distrital e o metropolitano. A rotina é quase sempre a mesma: acordar de madrugada, percorrer dezenas de quilômetros, trabalhar o dia inteiro, percorrer mais dezenas de quilômetros, jantar e dormir para repetir o mesmo ritual no dia seguinte.
Diariamente, são mais de 47 mil passageiros que utilizam as linhas metropolitanas da Viação Garcia, Ouro Branco, Til e Londrisul. O número de usuários do transporte coletivo da Grande Londrina foi solicitado à Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), porém, após uma semana de espera, não houve resposta.
A FOLHA acompanhou três trabalhadores que tiveram que se adaptar à rotina de cumprir um longo trajeto diariamente. O pedreiro Sebastião Paulo Soares, 49 anos, gasta três horas e meia para ir trabalhar. Tião, como é chamado, é morador em um sítio no Distrito de São Luiz (35 km do Centro de Londrina) e, se fizesse esse trajeto de carro, não levaria mais de 30 minutos. ''Gasto quase o mesmo tempo de um dia de trabalho só no trajeto'', diz Tião.
Após mais um dia de trabalho em uma construção na Zona Sul, próxima ao Jardim União da Vitória, Tião acende um cigarro à espera do primeiro ônibus em um ponto em frente à obra. São 17h30 quando o 219 - Jardim Esperança chega. O carro está vazio e ele se acomoda nos assentos do fundo. São 15 minutos até a chegada no Terminal Acapulco.
Enquanto o 209 - Acapulco via Shopping não chega, Tião conta que nos finais de semana gosta de pescar. ''Sou uma pessoa tranquila e não me estresso facilmente, mas essa rotina é bem cansativa. Chego em casa por volta das 20h30, janto e vou dormir'', diz. De segunda a sexta, Tião acorda às 3 horas, toma um café reforçado, coloca a marmita preparada pela esposa na mochila e caminha uma hora até o ponto de ônibus. A estrada é de terra e não possui iluminação. ''Venho no escuro, já acostumei'', conta. Ele chega no ponto às 5 horas, mas o primeiro ônibus só passa às 5h50. ''Prefiro esperar 40 minutos do que sair mais tarde de casa. Nesse tempo eu consigo descansar da caminhada'', responde ele, que entra no trabalho às 7h30.
Após 15 minutos de conversa, o ônibus chega. Tião olha para o relógio e comenta: ''Se não ocorrer nenhum atraso, vai dar para pegar o ônibus das 18h30 no terminal do shopping.'' Dentro do coletivo, Tião encontra amigos que têm a mesma rotina. Entre um cumprimento e outro, ele conta que são as conversas que ajudam a passar o tempo. ''Já tentei morar perto do trabalho, mas não tem a mesma tranquilidade. Prefiro encarar tudo isso, pois ganho mais do que trabalhar no sítio'', afirma.
Doze minutos depois, desembarcamos no terminal do shopping. Lá, o volume de passageiros é grande e Tião sente dificuldade para desembarcar. Acende um cigarro e desabafa: ''Não adianta esquentar a cabeça.'' Às 18h30 em ponto, o ônibus estaciona e todos os assentos são ocupados. Tião segue em pé. O trajeto agora será de 40 minutos até São Luiz. ''Se eu pudesse ganhar mais tempo no caminho, aproveitaria para dormir e ficar com minha família. A gente tem que levar a vida com um pouco mais de brincadeira porque fica mais fácil enfrentar as dificuldades'', comenta.
Ao chegar em São Luiz às 19h10, Tião desce e espera mais 20 minutos para pegar o último ônibus do dia. Às 19h30 ele embarca no 290 - Guaravera e percorre dois quilômetros. Os outros quatro ele segue a pé, para enfim chegar em casa e poder descansar para às três da manhã começar um novo dia.

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