Dez ficam feridos em conflito de terra
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de setembro de 1997
Alexandre Sanches Jundiaí do Sul 
Dorico da SilvaOs sem-terraO líder dos sem-terra, Vanderlei Tardeli (d), diz que o conflito começou
quando os agricultores estavam vistoriando as divisas da fazenda e foram recebidos pelo fazendeiro e seguranças armados Cerca de 10 pessoas ficaram feridas num conflito de terras na Fazenda Cordilheira, em Jundiaí do Sul (64 km ao sul de Jacarezinho), de propriedade da família Granemann. Por mais de quatro horas na tarde de anteontem, os sem-terra mantiveram amarrados em árvores e carroças, o cunhado dos proprietários, Haroldo Sweitzer, o fazendeiro vizinho, Nei Mário Minardi, e cinco seguranças contratados para defender a área.
Bastante feridos, só foram liberados após intervenção da polícia - que compareceu com efetivo de 60 soldados do Batalhão da Polícia Militar de Jacarezinho - e políticos. Minardi está internado no Hospital Evangélico de Londrina, com trauma craniano com fratura e escoriações e hematomas pelo rosto e corpo. O líder dos sem-terra, Idair Sebastião Ribeiro, conhecido como Odair Macoto, está internado na Santa Casa de Londrina. Ele levou um tiro na coxa e a bala está alojada nos glúteos.
Há cinco dias 40 famílias sem-terra, que estavam acampadas há dois meses às margens da rodovia que liga Jundiaí do Sul a Guapirama, invadiram a Fazenda Cordilheira. Eles garantem que a propriedade foi considerada improdutiva. Recentemente a fazenda de gado de 430 alqueires foi loteada entre vários herdeiros.
Dorico da SilvaO fazendeiroNei Minardi, que está internado com trauma craniano, dá outra versão: eles teriam visto os sem-terra em uns cavalos da fazenda e pediram para que deixassem os animais. Foi aí que a confusão começou
Por volta das 12h30 de anteontem, segundo os sem-terra, quatro acampados estavam vistoriando as divisas da fazenda, numa área do outro lado da rodovia. Ao chegar na casa do administrador, encontraram Haroldo Sweitzer, Minardi e os seguranças. O Haroldo pediu para descermos do cavalo e perguntou quem era o líder. Quando o Idair se identificou, Haroldo apontou um revólver. Um companheiro tentou desviar a arma, mas ela disparou acertando Odair, conta Vanderlei Tadeli, que responde pelo acampamento.
Após o disparo, os sem-terra - acampados a aproximadamente 800 metros do local - correram armados com facões, foices e pedras. Haroldo e seus homens se refugiaram na casa. Houve troca de tiros. Os sem-terra, principalmente as mulheres e crianças, jogaram pedras nas vidraças e telhado. Também colocaram fogo em dois carros de Haroldo, um Vectra e uma Kombi.
Em seguida, arrombaram as portas da casa e prenderam os fazendeiros e os seguranças. A mulher do caseiro José Francisco Viana, Leiza de Fátima Lima, e dois seguranças conseguiram fugir. Viana levou uma pancada na cabeça e desmaiou. As marcas de sangue, encontradas na varanda e paredes, denunciam a violência, junto com móveis e objetos que foram quebrados. Uma casa de madeira, próxima da rodovia, também foi queimada.
O outro lado Por sua vez, Nei Minardi diz se lembrar pouco do que aconteceu, mas relata que estava acompanhando o amigo Haroldo Sweitzer e alguns seguranças. Vimos os sem-terra em uns cavalos da fazenda e pedimos para deixarem os animais lá, disse. Segundo ele, dois sem-terra deixaram os cavalos, mas chegou um terceiro que se recusou e a confusão começou.
Quando vi, tinha uns 50 em cima da gente, relata. Segundo o fazendeiro, os sem-terra bateram bastante e depois levaram ele, seu amigo e mais três ou quatro dos seguranças para a área invadida. Minardi disse não se lembrar exatamente quanto tempo eles ficaram amarrados na árvore. Ele declarou que bateram em sua cabeça duas vezes.
Ainda segundo a versão do fazendeiro, todos sofreram ameaças. Disseram que se um deles morresse, eles iam matar os reféns, garante. Minardi afirmou desconhecer que um dos sem-terra havia sido ferido.
Incra Os sem-terra afirmam ter matado dois bois para alimentar as crianças desde que ocuparam a fazenda. No acampamento era fácil encontrar sem-terra salgando carne na cerca para fazer charque. Na cidade, o comentário é que teriam matado pelo menos seis animais.
Ele afirmam que só vão sair da área quando técnicos do Incra comparecerem na porta da fazenda para fazer a vistoria, pois afirmam estar cansados de esperar providências. Os sem-terra já ocuparam as fazendas Santa Maria, em Ribeirão do Pinhal, e Monte Verde, em Jundiaí do Sul, e saíram para que fossem feitas vistorias, mas não foram assentados.
Sem ligações com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o grupo se diz autônomo nas decisões. No entanto, segue algumas características do MST, como não revelar as fontes que informam quais áreas são improdutivas e passíveis de reforma agrária.
Segundo o prefeito de Jundiaí do Sul, Valdir Abras (PTB), a superintendente do Incra no Paraná, Maria de Oliveira, esteve ontem em Guapirama - município vizinho - passeando com a família. Até o meio da tarde de ontem ela não havia ido ao acampamento. Um efetivo de 13 PMs está de prontidão na entrada da fazenda até que os ânimos se acalmem. Porém, os sem-terra mandam seu recado: Só sairemos daqui depois que o Incra nos der outra área ou então mortos. Estamos cheios de promessas, garante Vanderlei Tardeli. (Colaborou Lucília Okamura)


