Há quase dez anos, nas vésperas do Natal, os cerca de 9 mil moradores de Santa Isabel do Ivaí (Noroeste) viram a tranquilidade do lugar desaparecer. Repentinamente, várias pessoas começaram a se queixar de febre, dor de cabeça e fadiga muscular, além de apresentarem gânglios (ínguas) na região cervical. Uma investigação apurou que se tratava de toxoplasmose, doença transmitida através das fezes do gato e que pode ser adquirida através de verduras e frutas mal-lavadas, carne mal-passada e água contaminada. Para as gestantes a doença é potencialmente grave porque pode provocar aborto ou má-formações fetais.
No total, 426 pessoas foram contaminadas, o que torna este o maior surto da doença no mundo. Desse total, 11 já obtiveram na Justiça direito a indenização. Investigações levantaram que o reservatório de água da cidade, que era subterrâneo, era o foco da toxoplasmose. Além do número de pessoas infectadas, o que mais chamou a atenção nesse caso foi que até então não estava comprovado que a doença poderia ser adquirida pela água.
''Hoje a cidade dispõe de dois reservatórios de água, um que já existia na parte alta do município e um novo, ao lado deste, construído após o surto de toxoplasmose. A água vem de dois poços artesianos, recebe cloro e flúor e os reservatórios são esvaziados duas vezes por ano para limpeza. O reservatório antigo foi desativado e aterrado'', conta Kátia Cilene Tavares, diretora do Sistema Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Santa Isabel do Ivaí.
Mesmo após todo o caos que se instalou no município, os moradores ainda precisaram esperar quase quatro anos até que o novo reservatório ficasse pronto. ''Foram gastos R$ 250 mil na obra, que englobam o novo tanque e também as adutoras que levam a água dos poços até o reservatório. Agora, através de recursos recebidos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), iremos também fazer a troca de toda a tubulação que distribui a água para as residências'', explica a diretora.
Várias pessoas entraram com pedidos de indenização, que começam a ser pagos neste ano. ''Devemos pagar em ordem cronológica e fizemos acordos nos valores acima de R$ 10 mil, que deveriam ser parcelados, para que consigamos pagar em parcela única. Assim que o juiz homologar esses acordos começaremos a fazer o pagamento'', atesta Kátia.
Uma das famílias que devem ser indenizadas é o casal Daiane Ferreira Gomes Maia e Hugo Alves Maia. Na época a dona de casa estava grávida de cinco meses e contraiu a doença. O bebê nasceu com vários problemas no cérebro, ficou internado oito meses no Hospital Universitário da UEL, mas não resistiu.
''No começo dos sintomas achei que era uma gripe, depois apareceram caroços no meu pescoço e aí fiquei sabendo da doença. Tomei remédios durante a gravidez, meu filho nasceu fisicamente perfeito, mas com problemas internos. Ele ficou cinco meses internado na UTI, depois foi para o quarto, mas os médicos já tinham me avisado de que ele ficaria daquele jeito para sempre'', lamenta.
Daiane conta que ficou os oito meses em Londrina, em uma casa de passagem, enquanto o marido teve que voltar para trabalhar em Santa Isabel. Hoje eles cuidam do pequeno João Gustavo, de 3 anos, mas o trauma ainda não passou. ''Demorei para ter coragem de engravidar novamente, tinha muito medo de tudo se repetir, embora os médicos me afirmassem que estava tudo bem. Tive depressão pós-parto e qualquer resfriado que o João tem eu já fico apavorada. Também tenho medo de beber essa água, mas não tenho condições de ficar comprando a mineral'', conta.
Sobre a indenização a ser recebida - cerca de R$ 49 mil -, Daiane diz que sente que foi feita justiça. ''Mas esse dinheiro não me traz nenhuma alegria, nada substitui meu filho.''
A auxiliar de sala de aula Jane de Fátima Rosa também estava grávida de sete meses quando foi contaminada. ''Eu não desenvolvi nenhum sintoma, fiquei sabendo porque todas as grávidas tiveram que ser examinadas.'' Apesar da medicação, a filha dela nasceu com toxoplasmose, que provocou lesão num dos olhos da criança. ''A visão é bastante afetada. Anualmente tenho que levá-la ao oftalmologista para fazer o acompanhamento'', conta.
Jane também entrou com pedido de indenização. ''Sei que se ela tiver uma queda grande da imunidade pode ter novos problemas com a doença, por isso entrei com a ação. Ainda não sei o que ela vai passar por conta disso.''

mockup