Dez anos de um acidente com final feliz
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 2003
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
No dia 14 de janeiro se completarão dez anos de um trágico acidente de ônibus que mudou para sempre a vida da professora Alcilene Caldeira da Silva (veja box). Entretanto, ao contrário do que pode parecer, os episódios que resultaram do incidente provocaram, em sua imensa maioria, mudanças para melhor. Em parte, Alcilene pode creditar ao fatídico acidente a sua volta aos estudos e o amor de uma família que praticamente se tornou seu segundo lar.
''Tive sorte desde os primeiros minutos do acidente, quando fui retirada do ônibus por um rapaz que me deitou no asfalto e disse para eu não me mover. Em seguida, uma senhora me deu carona ao Hospital Evangélico tomando o cuidado para fazer o percurso que tivesse menos lombadas e sinaleiros, para que chegássemos mais rápido'', lembra Alcilene. Na época, ela tinha 18 anos e trabalhava como professora em Marianópolis, no Tocantins.
Hoje, a recuperação clínica da jovem pode ser considerada excepcional. À exceção de uma grande cicatriz no cotovelo direito e alguma morosidade nos movimentos da mão, pouca coisa denuncia que parte de seu braço foi decepada no acidente. ''Estive nas mãos de um médico muito humano, o doutor Édson Takaki, que nunca deixou de acreditar. Não há quem não fique impressionado com o resultado, dez anos depois'', conta Alcilene, que se submeteu a seis cirurgias em cinco anos para recuperar o membro afetado.
A sorte da professora continuou atuando quando Edilisete Alves Pereira, a Dili, soube do acidente pela televisão. ''Anos antes, nossa filha (Sandra) também tinha sofrido um acidente e fez um reimplante de pé. O doutor Takaki salvou a vida dela e nunca admitiu a hipótese de amputação. E, quando eu soube do caso da Alcilene, eu quis agradecer ao médico, retribuir o que ele tinha feito por nós'', lembra Dili.
Ela visitou Alcilene no hospital, explicou que a jovem estava em boas mãos e disse que ajudaria no que ela quisesse. Após quinze dias de internação, a professora ligou para Dili e cobrou a ajuda. A amiga e seu marido, Joel, hospedaram Alcilene em sua casa, colocaram o quarto do casal à disposição e mudaram até a posição dos móveis da casa para melhor acomodar a visitante. ''Nos primeiros meses de recuperação, precisei voltar muitas vezes a Londrina, e eles sempre me recebem como uma filha'', lembra Alcilene.
Hoje, ela é professora com diploma se graduou em Pedagogia em Paraíso, outra cidade do interior de Tocantins, e em março conclui a pós-graduação. Por incrível que pareça, até nisto o acidente influenciou. ''Eu fazia fisioterapia em Paraíso, e, para facilitar as sessões, acabei me mudando para lá. Como estava muito próxima da faculdade, decidi voltar a estudar'', lembra. Alcilene também se casou, há quatro anos, mas ainda não tem filhos.
Leva uma vida normal, à exceção das pequenas diferenças motivadas pelo acidente. Destra, teve que aprender ''na marra'' a escrever com a esquerda. Esta semana, esteve em Londrina de passagem, após visitar parentes em Maringá no final do ano. ''Eu nunca tive problemas de auto-estima (por causa do braço). O doutor Takaki me levava para os hospitais, me fazia conversar com as pessoas, me apresentava gente em situação parecida com a minha'', relembra. ''Minha vida, que poderia ter se tornado uma tragédia, foi salva por pessoas maravilhosas''.


