Devastação florestal compromete fauna
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de outubro de 1998
Paulo Pegoraro 
A operação de resgate de animais na região do reservatório da Hidrelétrica de Salto Caxias, no Rio Iguaçu, pela Copel, aquece a preocupação com a devastação do meio ambiente e as consequências diretas sobre a fauna. Iniciada no dia 7 e já praticamente concluída, a operação tem capturado apenas bichos de pequeno porte. São lagartos e serpentes não venenosas, aranhas e insetos, roedores (principalmente ratazanas) e ouriços, tatus e gambás.
A Copel mobilizou uma equipe de 40 pessoas, entre biólogos, veterinários, estagiários de universidades e auxiliares. Barcos, carros e um helicóptero foram colocados em ação, em três bases distribuídas na faixa de aproximadamente 90 quilômetros de extensão e 132 quilômetros quadrados do reservatório em formação.
O trabalho foi iniciado a partir da zona da barragem, encravada entre os municípios de Capitão Leônidas Marques (78 km ao sul de Cascavel) e Nova Prata do Iguaçu (78 km ao norte de Francisco Beltrão). É que neste ponto a água se eleva primeiro, para depois ser represada, inclusive em afluentes do Iguaçu, ao longo de outros sete municípios. No período que antecedeu a operação, havia a expectativa de que fossem encontrados o gato-do-mato, a suçuarana, outros felídeos de pequeno e médio porte, cobras venenosas e até o jacaré-de-papo-amarelo, em extinção no Brasil.
Mas, no lugar do gato-do-mato apareceram somente gambás e ratos. As perigosas cascavéis também não apareceram. Apenas cinco corais e uma jararaca e pequenas e inofensivas cobras verdes foram encontradas. O mesmo ocorreu com os esperados jacarés, que no resgate foram substituídos por lagartos.
O biólogo Sérgio Morato, coordenador da operação, reconhece que o fato de terem sido encontrados apenas bichos menos atraentes é anormal. Ele chegou a considerar a hipótese de a topografia das barrancas do Rio Iguaçu terem favorecido a fuga de outros animais no início do enchimento do reservatório, pelo fato do terreno, nas partes alagadas, não ter inclinação e facilitar o deslocamento dos bichos.
Por esta hipótese, os animais teriam ido para áreas próximas, com vegetação. No entanto, Morato constata que ao longo do rio restaram apenas fragmentos de matas. A região foi ocupada há meio século por pequenos agricultores do Extremo-Sul do País, que cortaram as árvores até praticamente extingui-las, implantando lavouras de subsistência e pastagens nas margens do rio.
O administrador da Coordenadoria de Impacto Ambiental da Copel, Milton Ferreira, relata que em outras operações de salvamento de fauna durante enchimento de reservatórios, como na Hidrelétrica de Salto Segredo, também Rio Iguaçu), foram encontrados inclusive veados. Mas lá a vegetação era mais densa, informa. A devastação no Oeste do Paraná é crítica, com a manutenção de apenas cerca de 3% da cobertura florestal original. A média de cobertura no Estado está na faixa de 5% a 8%.
Segundo a engenheira florestal Sônia Machado, do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), a preocupação é que em torno da vegetação gravitam todos os elementos da Natureza: flora, fauna, água e ar. Em Caxias, restou praticamente água. O contraste pode ser conferido bem próximo da barragem, no Parque Nacional do Iguaçu, a maior reserva florestal sub-tropical do mundo, com 225 mil hectares.
Nela está o refúgio de animais raros como o jacaré-de-papo-amarelo, gaviões como o pega-macaco, jaguar, suçuarana, jaguatirica, gato-do-mato e onça-preta. A diferença é que o Parque Nacional do Iguaçu, Patrimônio da Humanidade, é intangível.


