Eles permanecem cerca de seis horas digitando, relembrando ou aprendendo conteúdos escolares, compartilhando experiências e ainda praticando uma ação solidária, de fundamental importância para pessoas com deficiência visual. Trata-se do projeto Visão de Liberdade, desenvolvido há cerca de um mês na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL).
O trabalho consiste na produção de materiais didáticos adaptados a deficientes visuais atendidos pelo Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos (Ilitc). A entidade encontrava dificuldade para confeccionar livros e apostilas em alto relevo direcionados a alunos dos ensinos Fundamental e Médio.
A parceria do (Ilitc) e da PEL segue o modelo desenvolvido na Penitenciária Estadual de Maringá (PEM), que realiza a atividade desde 2004. Uma sala de aula do Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos Professor Manoel Machado foi transformada em canteiro de trabalho e equipada com dez computadores, doados pela ONG E-Lixo, que auxilia na manutenção das máquinas. O projeto é administrado pela Divisão de Ocupação e Qualificação da unidade prisional.
O detento Eder de Moraes, de 27 anos, é o orientador da equipe que conta com outros quatro jovens responsáveis pela confecção dos materiais didáticos. Natural de Londrina, Moraes está preso há um ano e oito meses por tentativa de latrocínio. "Achei a ideia do projeto bem bacana, porque assim nós aprendemos e produzimos algo que realmente vai ajudar outras pessoas", conta Moraes, que já conhecia um pouco de braille e agora auxilia os colegas.
"O sentimento é de orgulho por saber que estamos produzindo um trabalho que vai ajudar pessoas com deficiência visual a aprenderem mais coisas", explica o detento Adriano Gouveia, de 30 anos, que é natural de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) e que está recluso há cerca de dois meses. Ele não quis comentar sobre o crime que cometeu, mas também enfatizou o quanto o trabalho tem ajudado a esquecer por alguns instantes o momento pelo qual está passando. "A gente ajuda um ao outro e nem vê o tempo passar."
"Participo do projeto desde o início e pretendo continuar com o trabalho enquanto puder para fazer minha economia e ainda diminuir o tempo aqui dentro", afirma Luiz Benite, de 20 anos, de Ribeirão do Pinhal (Norte Pioneiro), preso por tráfico de drogas há três meses.
A cada três dias de trabalho os detentos têm um dia de remição da pena e recebem o pecúlio de R$ 30 mensais. Um familiar credenciado pelo preso pode retirar 80% do valor. Caso não haja o credenciamento para a retirada mensal, é depositado o valor integral numa conta poupança para que o próprio preso possa fazer o saque quando sair da prisão.
Segundo o diretor em exercício da PEL, Cristiano Ivano, na unidade são 595 detentos provisórios ou apenados, mas somente 15 deles devem participar neste primeiro momento do trabalho, devido à quantidade de computadores disponíveis e o conhecimento necessários para realizar a atividade. Ivano detalha que a ideia de trazer o trabalho para Londrina surgiu dele e de um outro colega que trabalharam em Maringá e trouxeram o exemplo para Londrina.
De acordo com a diretora do Ilict, Ivone Gomes da Rocha Galdino, trata-se de mais uma garantia que os alunos matriculados na rede regular de ensino receberão o material didático completo quando chegarem na escola. Isso porque hoje somente uma professora é cedida pelo governo do estado para a digitalização e adaptação de todo o material didático que será utilizado por esses alunos.
"Seria impossível ela dar conta de tudo isso. O trabalho veio justamente no sentido de auxiliar nessa tarefa e ainda dar uma oportunidade para esses detentos de se ressocializarem", destaca Ivone, que é responsável pela capacitação dos detentos.
Nos próximos 15 dias o primeiro livro deve ser finalizado e impresso. Um exemplar será enviado para os detentos. "Queremos que eles vejam o resultado do que estão fazendo por nossos alunos."

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