Detentos aprendem a montar aquecedor solar
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terça-feira, 03 de julho de 2007
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Preso há dois anos, o auxiliar de serviços gerais Marcos (nome fictício), 38 anos, teve um dia diferente ontem no Centro de Detenção e Ressocialização (CDR) de Londrina. Ele e outros 19 detentos foram selecionados para participar de um treinamento de montagem de aquecedores solares ecológicos. Atividade que representou, para ele, um leque de oportunidades.
''É um negócio muito bom para a gente. A gente aprende alguma coisa e ainda ganha uma remuneração. Vai dar até pra fazer um em casa quando sair daqui'', comentou Marcos. Outras vantagens, de acordo com os detentos, são a remissão de pena - três dias de trabalho representam a redução de um dia - e a possibilidade de aprender um ofício.
A construção de aquecedores solares ecológicos faz parte de um projeto das secretarias de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema) e da Justiça. O treinamento é ofertado em escolas, sindicatos, igrejas e carceragens. Os equipamentos produzidos pelos internos do CDR serão instalados em 18 casas que estão sendo construídas pelo projeto Onde Moras no Jardim São Jorge (Zona Norte).
O sistema é montado com garrafas PET, embalagens de leite longa vida e tubos e conexões. Um equipamento com capacidade para aquecer uma casa onde vivem quatro pessoas custa em torno de R$ 150,00. É necessário, porém, já contar com caixa d'água, explica o instrutor João Mendonça.
O interesse dos alunos surpreendeu Mendonça. Ele explicou que os participantes do treinamento serão multiplicadores do conhecimento para outros internos. A meta é manter uma oficina permanente de construção dos aquecedores. ''O equipamento que está sendo construído hoje vai ficar aqui para servir de modelo, junto com o manual que ensina a montagem'', declarou.
De acordo com o major Raul Leão Vidal, diretor do CDR, a seleção para o programa levou em conta o grau de periculosidade dos detentos. ''O preso que trabalha se socializa. Praticamente todos os nossos 863 internos querem trabalhar'', garantiu. Hoje, no entanto, 180 trabalham e 140 estudam.
As iniciativas que conciliam ressocialização de presos e conscientização não param por aí. Outros projetos da Secretaria de Meio Ambiente deverão ser implantados na unidade prisional. Um exemplo é a produção de mudas para o programa de matas ciliares, iniciativa que já existe em presídios de Maringá e Piraquara.
Para a chefe do escritório regional da Sema, Ângela Carvalho, o conceito de reciclagem do aquecedor solar ecológico deve ser repassado aos participantes da oficina. ''Além de ensinar atitudes ecologicamente corretas, o trabalho de produção dos equipamentos acaba por transferir valores para as pessoas. É um trabalho que proporciona a reciclagem dos materiais e das pessoas'', comparou.
Também auxiliar de serviços gerais, Renato, 28, cujo nome verdadeiro é mantido em sigilo, conta que já viu o sistema na televisão. Ele comentou que pretende ''ganhar dinheiro'' com a técnica aprendida atrás das grades. E que a atividade traz três vantagens principais: remissão da pena, ajuda de custo para a família e a oportunidade de mudar a rotina de detento através do trabalho.
''É uma coisa diferente da nossa rotina. Quem sabe não posso usar o que aprendi aqui para ganhar dinheiro quando sair'', sonha o rapaz, que cumpre pena por assalto e contabiliza cada dia reduzido na pena após três de trabalho. Rotina da carceragem que terá de enfrentar nos próximos 17 meses. Ou menos, dependendo da remissão.


