Maringá - Marcos passou parte de sua juventude assaltando bancos. Hoje, com 34 anos, se vê inserido num trabalho social tão importante que se impressiona com os rumos que a vida tomou. O interno da Penitenciária Estadual de Maringá (PEM) já pagou 15 dos 60 anos que a Justiça estabeleceu pelos crimes que cometeu: assaltos e latrocínio (roubo seguido de morte). Esperançoso com a possibilidade de ainda conseguir uma progressão de pena, Marcos segue trabalhando no projeto Visão de Liberdade - por meio de sua voz, tem ajudado deficientes visuais a ''enxergar'' o mundo.
''Antes eu pensava como todo criminoso pensa. Queria ganhar dinheiro fácil e levar a vida fácil. A vida às vezes nos leva para lugares certos por caminhos estranhos. Hoje eu estou aqui, gosto muito do que faço e não pretendo mais parar de atuar nessa área'', diz.
Marcos é um dos 15 detentos que participam do projeto composto pela direção da PEM; Centro de Apoio Pedagógico para Pessoas com Deficiência Visual (CAP) - órgão ligado à Secretaria Estadual de Educação, além do Conselho de Segurança (Conseg) de Maringá. Eles se revezam na digitação de livros em braile, produção de material em relevo e livro falado.
A voz do detento chama a atenção do funcionário público Ricardo Alexandre Vieira, deficiente visual responsável pela revisão dos materiais produzidos na PEM. ''Sou eu quem ouço os livros falados e observo os livros em braile para verificar se está tudo de acordo. Quando sinto um ruído ou se algo está com problema, solicito para eles refazerem o material. A voz do Marcos é muito boa e isso ajuda o deficiente a se sentir ainda melhor ouvindo um livro didático ou uma literatura qualquer'', explica.
O projeto existe há quase seis anos. São produzidos por mês dois livros em braile, que são completados com 300 a 500 materiais em relevo. No total, já foram confeccionados cem títulos digitados em braile, que podem ser impressos sempre que solicitado. ''Uma funcionária do CAP comentou que estava com dificuldade em encontrar pessoas para gravar os livros falados. Então pensamos em colocar os detentos para fazer isso e acabou dando certo'', comenta o presidente do Conseg, coronel Antônio Tadeu Rodrigues, um dos idealizadores do projeto
Diferente e gratificante
No início não havia nenhuma estrutura. Depois de um repasse de R$ 30 mil feito pela Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb) no final do ano passado, o projeto foi ampliado. Foram adquiridos mais computadores e um estúdio moderno para a gravação dos audios. ''Também compramos novas máquinas de reprodução dos CDs e materiais para os livros em braile e de relevo'', lembrou Rodrigues.
E é com o trabalho no livro em relevo que o detento Ricardo, 28, mais se identificou. Preso por tentativa de latrocínio há sete anos, ele ainda sonha em ser engenheiro agrônomo quando deixar a unidade. ''Quando sento aqui pra montar esses livros, fecho os olhos e tento imaginar o que o deficiente visual sente. É diferente e gratificante saber que nosso trabalho está sendo útil para alguém'', comenta.
A coordenadora do CAP-Maringá, Maria Angela Sierra, explica que só nos 129 municípios da região, pelo menos 307 pessoas com baixa visão e outros 106 cegos recebem o material. Já os livros falados são distribuídos para todo o Estado e alguns exemplares seguiram para a Biblioteca Nacional de Lisboa, em Portugal.
Para o diretor da PEM, Eduardo Krevieski, é nítida a mudança de comportamento dos presos que se envolvem não só nesse trabalho, mas em todos os outros cursos oferecidos dentro da unidade que abriga 360 condenados. ''No início eles se apresentam cheios de vícios, revelam uma mistura de medo e de agressividade. Conforme vão se envolvendo com as atividades passam a se acalmar e nem parecem ser as mesmas pessoas que cometeram os crimes pelos quais estão aqui'', finaliza.

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