Destilando ódio e preconceito na Rede
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de maio de 2005
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Se é verdade que toda crise tem um lado positivo, o do escândalo das ofensas veiculadas na internet por alguns residentes do Hospital Universitário (HU) de Londrina foi trazer à tona questões importantes que estavam adormecidas. Qual o limite de uma ''brincadeira'' na rede virtual? O que a disseminação do ódio na internet diz sobre a sociedade atual? Guardar um preconceito para si é melhor do que compartilhá-lo?
A discussão está na pauta do dia, mas o caso relacionado ao HU não é isolado. Há milhões de páginas e comunidades na internet dedicadas a externalizar o ódio por indivíduos. Só no Orkut, uma pesquisa simples usando as palavras ''eu odeio'' revela uma lista incontável de alvos, desde gente famosa (''Eu odeio a Sandy'', ''Eu odeio o Galvão Bueno'') até vizinhos e colegas de escola. Da celebridade à pessoa conhecida apenas pela comunidade virtual, os destinatários das ofensas quase sempre têm nome e foto publicados. O ódio é expressado em diversos níveis: xingamentos, sugestões de tortura, desejos de morte.
''Externalizar agressividade dessa maneira não é saudável, não é humano'', sentencia o psiquiatra londrinense Pedro Dequech. ''Essas comunidades eliminam pessoas, como se elas não devessem nem existir. É um pensamento psicopático e precisa ser questionado, sim. Você tem que aprender a lidar mesmo com aquele que você não gosta'', prossegue. Dequech explica que todos nós temos preconceitos, mas que eles se tornam patológicos quando começamos a ''atuar'' sobre eles. Atuar, nesse caso, significa tomar atitudes como agredir física e verbalmente o alvo do preconceito.
Para o psiquiatra, uma pessoa madura e adulta não pode simplesmente aceitar o próprio preconceito e externá-lo com a desculpa de ''não ser hipócrita''. No caso do grupo de residentes do HU, por exemplo, Dequech é categórico: ''Se eles não têm condições de lidar com isso, não serão bons profissionais. Talvez a melhor 'punição' para eles seja buscar tratamento (terapêutico). É o momento também de se rever alguns pontos da formação dos novos médicos, propôr debates, propôr palestras. Esse episódio foi o sinal de que algo precisa ser feito.''
O debate que agora ganha a mídia corroborou a idéia que a artista plástica Fernanda Magalhães, 42 anos, já vinha alimentando há meses: o preconceito veiculado em comunidades da internet passou dos limites. Pesquisadora e autora de obras fotográficas que expõem a imagem da mulher gorda como forma de expressar as diferenças, Fernanda descobriu, no Orkut, mais de 90 comunidades dedicadas ao ódio a mulheres obesas. Ela destaca títulos como ''Eu odeio gordas no ônibus'' e ''Eu odeio gordas que se acham'', que trazem denominações cruéis como ''bacons''.
''Quando a pessoa só se expressa verbalmente, ela tem um pouco mais de vergonha, de receio. O que eu percebo no Orkut é que eles colocam tudo com muita liberdade. As pessoas se vêem estimuladas a xingar, é um espaço de 'propaganda' do preconceito'', avalia. ''Odeio censura e tenho dificuldade em dizer se gostaria que tirassem essas páginas do ar. Mas definitivamente é algo que me agride cada vez que eu abro'', argumenta Fernanda, que já tomou uma atitude contra o preconceito virtual: criou a comunidade ''Mulheres gordas com orgulho''.


