DESRESPEITO - Sem lugar para a segurança
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2006
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Pelo senso comum, já virou praxe aliar o conceito de segurança nas rodovias e estradas ao bom estado de conservação e sinalização das vias; da mesma forma, a referência se estende também aos conceitos de prudência do motorista. As campanhas da sociedade civil são enfáticas no combate à mistura álcool/direção; simultaneamente, operações especiais das polícias tentam coibir os excessos e fazer valer o Código Nacional de Trânsito (CNT). Na prática, porém, o problema da falta de segurança compreende atitudes nem sempre fiscalizadas como deveriam ser, mas que, assim como a velocidade ou a bebida, também colocam em risco a vida do cidadão.
A Folha constatou situações de perigo envolvendo passageiros de ônibus nos pouco mais de 160 quilômetros que ligam Londrina a Ourinhos, município paulista que faz divisa com o Paraná. A maior parte do trajeto, pela BR-369, é feita pelo território paranaense, onde os ônibus pegam e deixam passageiros nas rodoviárias de sete cidades (Ibiporã, Jataizinho, Cornélio Procópio, Santa Mariana, Bandeirantes, Andirá e Cambará). A reportagem acompanhou a rotina desses viajantes em dois feriados prolongados, o da Páscoa (14 a 16 de abril) e, mais recente, o do Dia do Trabalhador (28 de abril a 1º de maio). Apesar de o anúncio da lotação no interior do veículo indicar 42 passageiros sentados, o que se viu foi uma série de cenas de perigo em que pessoas viajam em pé, em algumas situações, até dezenas de quilômetros.
A linha que faz esse percurso interestadual é executada pela empresa Ouro Branco, vinculada ao grupo Garcia. Além de levar passageiros em pé com um cobrador circulando entre eles, a cada nova subida, o ônibus faz ainda um sem número de paradas: basta um aceno do cliente, seja onde for; muitos locais sequer possuem acostamento adequado.
Revoltada por ter de pagar o preço normal da passagem e viajar em pé, Roseli Gomes Pinheiro, 43, ainda tem que se equilibrar para levar a neta de dois anos no colo. ''Não adianta reclamar, não resolve nada. E dá medo, sim, ainda mais com criança, que pode cair e machucar'', relata.
Usando dois bancos como ponto de equilíbrio para os braços, o estudante Roberto Takemura, 20 anos, seguiu sem uma vaga de Cornélio até a entrada de Londrina, quase 80 quilômetros. Questionado se era a primeira vez que viajava naquela condição, foi taxativo: ''Seria a primeira vez que eu viria sentado, isso sim'', enfatizou, para completar: ''Já liguei para o 0800 da empresa, registraram o relato, mas até agora não me explicaram nada. Nunca prestei queixa no Procon também, admito, talvez porque seja cômodo chegar logo - mas tem hora que é insuportável''.
Também usuário da linha, o bancário Mauro Niabi, 20, vai além: comenta que nunca viu fiscalização parar o ônibus lotado de passageiros sem poltrona. ''Toda semana vejo gente em pé, o que é comum também em uma linha de Londrina a Maringá, às 20h20. É um risco sem tamanho: na freada mais brusca, a pessoa pode cair e machucar''.
É a mesma opinião do enfermeiro Cláudio Cordeiro, 48 anos. ''Após Cornélio, principalmente, o trajeto é cheio de curvas. E se houver qualquer imprudência do motorista, nós corremos um risco maior'', salienta.
Michele Galatti, 23, fisioterapeuta, e Edvaldo Secolo, 33, auxiliar de serviços gerais, eram os primeiros de uma longa fila iniciada já na cabine do motorista. De acordo com ela, eles são usuários dessa mesma linha todo final de semana: ''Somos de Londrina e sempre vamos a Cornélio. Hoje está até vazio: tem dias em que o motorista deixa a porta aberta e a gente fica na cabine, muitos sentados na escada. É terrível''. Ela também já reclamou: ''Só para o 0800 da empresa, sem resultados. Para a Polícia ou o Procon, nunca. É desgastante demais, deveriam é fazer o serviço direito''.
Serviço
Em caso de denúncia, o consumidor pode procurar os seguintes órgãos:
Promotoria de Defesa do Consumidor - 3372-9200
Procon de Londrina - 151
ANTT - 0800 61 03 00, ou pelo e-mail: ouvidoriaantt.gov.br


