DESPERDÍCIO - Alimento que vira lixo
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de março de 2011
Marian Trigueiros <br>Reportagem Local 
Desde o final do mês de fevereiro é intensa a movimentação de colheitadeiras nas lavouras para dar conta da safra de soja no Paraná. Estimativa do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) indica que 13,94 milhões de toneladas de soja sejam colhidas somente no Estado este ano. Mas se o número parece grandioso, muito se perde no caminho entre o campo e a mesa do consumidor. Um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano de 2002 sobre as perdas nos períodos pré-colheita e pós-colheita, apontou que 13% da safra brasileira de grãos (soja, milho, arroz, feijão e trigo) acabavam perdidas.
Assim como na safra de grãos, o problema se extende às demais culturas. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) revelam que o Brasil produz 25,7% a mais do que necessita para alimentar a população. Pesquisas do Instituto Akatu corroboram os números e apontam que o País é o quarto maior produtor mundial de alimentos. Porém, de 20% a 60% são desperdiçados entre a produção no campo e a mesa do consumidor. Em 2006, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) identificou que 26,3 milhões de toneladas de alimentos eram perdidas ao ano. Tão ruim quanto a perda de excelente comida é o prejuízo financeiro que, conforme o Programa Fome Zero, é de mais de R$ 12 bilhões somente em alimentos.
Apesar de o País possuir vasto potencial de produção, como se vê, a expansão de sua capacidade esbarra no problema primário do desperdício. Mas o que parece inadmissível pode ser ainda mais assustador devido à realidade do Brasil. Estudo da FAO de 2002 apontou que 15,6 milhões de pessoas passavam fome no país, deixando mais de 14,4 milhões de subnutridos, o que significa dizer que estas pessoas não têm acesso aos alimentos. Já a Pastoral da Criança considera que 16% das crianças até 6 anos são desnutridas, o equivalente a 3 milhões de crianças. Este grande número, de acordo com o Instituto da Akatu, faz o Brasil ocupar a 6ªposição mundial em subnutrição.
E o cenário pode ser ainda pior, se considerarmos as perdas na comercialização e que ocorrem na cozinha do consumidor final. Só nas unidades do Ceasa no Paraná, mais de 7 mil toneladas foram direto para o lixo no ano passado. Nos supermercados, a perda chega a 8% no setor de hortifruti. Situação semelhante nos restaurantes onde, só nos estabelecimentos de Londrina, joga-se fora até 30% do que cozinham para seus clientes, porque são proibidos de doar comida pronta. E na casa do paranaense, a falta de planejamento contribui para aumentar diariamente a quantidade de comida que vai para o lixo.


