Cinco famílias de brasiguaios (agricultores que migraram para o Paraguai) que vivem na localidade de Gasory, em Salto del Guairá, no Paraguai, (20 quilômetros de Guaíra) tiveram suas casas demolidas e os móveis totalmente destruídos durante uma suposta ação de despejo realizada por aproximadamente 50 homens da Polícia Ecológica do Paraguai. O despejo aconteceu no dia 12 de outubro, mas somente agora foi divulgado, porque uma das famílias denunciou o caso ao Consulado Brasileiro em Salto del Guairá e à imprensa.
Ontem, uma comissão formada por representantes do Centro de Direitos Humanos (CDH) de Foz do Iguaçu, Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Paraná e da OAB em Guaíra, estiveram no local para verificar como ficaram as propriedades e ouvir as famílias que se dize vítimas da violência da polícia. A comissão pretende encaminhar nos próximos dias um relatório para a Comissão de Direitos Humanos da OAB-PR e Movimento Nacional dos Direitos Humanos. ‘‘Se esses órgãos não tomarem nenhuma providência, vamos encaminhar o caso para Organização das Nações Unidas (ONU)’, disse o representante do CDH em Foz, Pedro Garcia.
A ordem para a realização do despejo foi assinada pelo juiz paraguaio Victor Benitez Rodas, de Ciudad del Este, a pedido do empresário paraguaio Oscar Zacarias Cubilla, que ocupou um cargo político na época em que o general Alfredo Stroessner comandava o Paraguai. Cubilla alegou à Justiça que a área onde os brasiguaios estão, pertence a ele.
Ney de SouzaArbitrariedadeA família de Carlos Marguis, que ficou preso durante quatro dias, perdeu tudo na ação da políciaOs brasiguaios afirmam que compraram as terras e que têm documentos que comprovam a legitimidade das propriedades. Alguns dias depois de autorizar o despejo, o juiz voltou atrás e revogou o pedido. Mas todas as casas já estavam no chão. Ontem, Benitez não foi localizado para esclarecer a decisão.
‘‘Isso que aconteceu aqui, não é uma ordem de despejo. Foi um ato de violência e selvageria. Deve ter sido por isso que o juiz revogou o pedido. Nós não tínhamos idéia da proporção desse fato’’, disse o representante do CDH, da OAB-PR, Paulo Gomes Junior, que também é procurador do Estado em Foz.
Segundo os brasiguaios, a polícia utilizou motosserras, fuzis e metralhadoras para derrubar as casas. Ontem, a Folha esteve no local e constatou o estrago feito pela polícia. As madeiras cortadas para derrubar as casas permaneciam no chão, com o que sobrou dos móveis e objetos pessoais.
Segundo cálculos do governo paraguaio, cerca de 400 mil brasiguaios vivem atualmente no país. Em 1994, o mesmo tipo de ação policial foi realizada em Santa Rita, também no Paraguai. Neste episódio, 90 famílias tiveram suas casas destruídas.
A violência dos policiais também assustou as crianças brasileiras que vivem na localidade. Parte delas deixou de frequentar a escola. ‘‘Muitas estão com medo de vir até a escola porque alguns capangas ficam rondando a área’’, contou a professora paraguaia Justina Marin, 27 anos, que também denunciou o caso.
A garota Bruna Marguis, de oito anos, ficou apavorada quando viu os policiais prendendo seu pai, o agricultor Carlos Marguis, 36 anos, e tentou correr. Ela acabou se ferindo em uma cerca de arame farpado e teve um corte profundo em uma das pernas. A família de Bruna perdeu tudo o que tinha, inclusive o arroz já colhido (leia texto ao lado).Ney de SouzaDestruiçãoO brasiguaio Carlos Marguis (dir.), sua mulher Nelci e o procurador Paulo Gomes Junior na casa destruídaEdna Mendes

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