Marcos Zanatta
De Maringá
O despejo da professora Eliete Oliveira, ontem no início da tarde no Conjunto Sol Nascente, em Maringá, revoltou os moradores do bairro. Um oficial da Justiça Federal e policiais arrombaram a porta da casa, retiraram todos os móveis de Eliete e trocaram as fechaduras das portas externas. Eliete estava no médico com o filho, de seis meses. Graças à intervenção de outros moradores, os móveis foram levados para a casa de uma vizinha. ‘‘Pedi para que colocassem na minha área, porque estava ameaçando chover’’, disse à Folha a dona de casa Isabel Navarro Marques.
Nervosa, Eliete explicou que mora na casa há nove anos, e que pagou a prestação durante um ano e dois meses. ‘‘Os reajustes deixaram o valor muito alto e não tinha como pagar’’, confessou. Ela contou que a dívida já estava executada e o imóvel deveria ir a leilão. ‘‘Mas eu fui lá na Caixa (Econômica Federal), e pedi mais prazo porque não quero sair daqui’’, afirmou. Eliete disse que tinha prazo de 30 dias para deixar a casa, mas não sabia ao certo quando venceria. ‘‘Minha intenção era negociar’’, garantiu.
Os moradores ficaram revoltados com o despejo e ao mesmo tempo temerosos, já que boa parte está inadimplente. O presidente da Associação dos Mutuários de Maringá, Mauro Gomes de Menezes, diz que muitas famílias do Sol Nascente tentaram negociar com a Caixa. ‘‘Mas não podemos aceitar as condições deles’’, afirmou. Ele explicou que o saldo devedor das casas do conjunto gira em torno de R$ 25 mil, enquanto o valor de mercado não passa de R$ 10 mil. Menezes disse ainda que peritos fizeram cálculos das dívidas de mutuários na mesma situação, comprovando que parte já quitou o imóvel mas continua pagando prestações ‘‘fora da realidade’’.
A gerente de habitação da Caixa em Maringá, Itamar Gongora, disse que Eliete foi comunicada do despejo há 66 dias, enquanto o normal é um prazo de 30 dias. ‘‘Ela sabia da data do despejo’’, garantiu. Segundo Itamar, quem ordena o despejo é a Justiça Federal. Ela alega ainda que todos os moradores inadimplentes do Sol Nascente foram convidados a negociar as dívidas, mas alguns não se interessaram pela proposta. ‘‘Quem continua devendo será despejado’’, avisou. A gerente descartou a possibilidade de mutuários já terem quitado a dívida, como diz a associação.
O juiz Jacomo Gimenes, da 1ª Vara Federal de Maringá, que determinou o despejo, disse que o procedimento é normal. Ele esclareceu que o processo corria contra o mutuário que tomou o imóvel financiado e que, apesar dos prazos concedidos à moradora, ela afirmou que não sairia da casa. ‘‘Quando o morador vem pedir um prazo nós atendemos, mas se existe recusa em sair, é despejado, se preciso, com força policial’’, disse Gimenes. O juiz autorizou o despejo forçado e disse que, se não for assim, o mutuário sai de casa em todas as datas agendadas para a desocupação. Nas duas varas federais de Maringá há 1,8 mil processos contra mutuários do Sistema Financeiro da Habitação. Segundo Gimemes, são raros os casos de despejo.

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