Desistências do Poupalar já somam 11 mil
A Companhia Habitacional de Londrina (Cohab-LD) informou que pelo menos 11 mil inscritos no Projeto Renascer/Poupalar se desligaram do programa desde que ele foi criado, em junho de 1999. Somente durante os três primeiros meses deste ano, as desistências já chegaram a duas mil.
Em função disso, o diretor-presidente da companhia, Carlos Eduardo de Afonseca e Silva, adiantou à Folha que o programa deverá ser reformulado. A Cohab está fazendo estudos para reformulação no Poupalar, mas antes disso, vai cumprir o objetivo de entregar os imóveis (para os inscritos), garantiu. Atualmente, 27 mil pessoas estão inscritas no Poupalar. Ele revelou também que a Cohab suspendeu novas adesões ao programa.
Carlos Eduardo disse não considerar preocupante o número de desistências, pois, segundo ele, grande parte dos desistentes estava, na verdade, procurando especular em cima do programa. Quando se vê que não dá para especular, a pessoa acaba desistindo e prefere pegar o dinheiro de volta. O mutuário desistente recebe o valor depositado, corrigido pelo Índice Geral de Preços Médios (IGP-M) menos 6%, a título de taxa de administração. A Cohab sugere aos optantes do Poupalar que seja depositado, pelo menos, 10% da renda familiar mensal.
Sorteada com uma casa no Conjunto Residencial Novo Horizonte (zona norte), a empregada doméstica Marilene Simão confirmou que esteve na Cohab e ouviu muita gente falando que iria desistir de contribuir com o programa por causa do tamanho da casa. As casas são geminadas e a área construída é de apenas 34 metros quadrados (sala/quarto, cozinha e banheiro).
Ela recebeu as chaves em março, mas ainda vai ter que esperar um bom tempo até conseguir concretizar o sonho de morar em seu próprio imóvel, pois além dela, tem mais o marido e três filhos, e não há espaço para todos. Um total de 250 mutuários já estão com as chaves, mas o conjunto continua praticamente inabitado.
Marilene informou que até receber as chaves pagava prestações mensais de R$ 40,00. Agora, com a chave do imóvel em mãos, o contrato assinado com a Cohab prevê o pagamento de 180 prestações (ou 15 anos) de R$ 118,00, perfazendo um total de mais de R$ 21 mil. Além disso, os contemplados têm que comprovar uma renda familiar mensal de, no mínimo, R$ 400,00.
Ela também reclamou que o bairro é muito longe do centro e fora de mão para trabalhar. A estrada de acesso ao conjunto, que tem quase 350 casas, não é asfaltada e falta segurança. Crianças e adultos que moram no Assentamento São Jorge, vizinho ao conjunto, circulam livremente por entre as casas ainda inabitadas. Cavalos de propriedade dos assentados também pastam nos quintais das casas, onde o mato já começa a crescer. Depois da entrega das chaves, a prefeitura não se responsabiliza mais pelos estragos nas casas, apontou Marilene.
O diretor-presidente da Cohab reconheceu que as casas são pequenas, mas lembrou que já recebeu os imóveis prontos da administração anterior. Ele esclareceu que a companhia alertou os interessados no Conjunto Novo Horizonte sobre a condição dos imóveis. Quem deu o nome para morar lá, sabia como era o imóvel, disse Carlos Eduardo. Ele explicou ainda que os contemplados podem recusar o imóvel no ato da entrega para tentar conseguir outro, em condições mais adequadas às suas necessidades.
A arquiteta e ex-professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Janir Simiema, que estudou os projetos habitacionais da zona norte de Londrina desde a implantação dos primeiros conjuntos na década de 70 (governo José Richa), concluiu que a ocupação dessa área foi marcada por interesses políticos, uma vez que havia outras áreas mais adequadas na zona urbana. Estes projetos não tiveram nenhuma preocupação qualitativa e essa má qualidade foi sendo disseminada nos outros conjuntos.





