Desinteresse pela política estudantil
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de março de 2018
Matheus Camargo<br>Estagiário 

A política estudantil não atrai os jovens. Segundo pesquisa divulgada pelo Ministério Público do Paraná, 5,54% dos estudantes entrevistados têm participação direta em grêmios estudantis, enquanto mais de 80% afirmam que jamais tiveram qualquer contato com os grupos. Os dados divulgados pelo MP em janeiro de 2018 se chocam com os acontecimentos do fim de 2016, quando uma onda de ocupações foi realizada em todo o Brasil e chegou ao Paraná tendo como pauta as críticas à reforma do ensino médio proposta pelo governo federal. Segundo o site Ocupa Paraná, o número de escolas participantes chegou a 850, somadas a 14 campi de universidades e três núcleos de educação.
"Não necessariamente os que responderam as perguntas participaram ou não das ocupações. Uma das perguntas até foi se eles participaram, mas não é a mesma coisa. (A ocupação) foi uma reação imediata à reforma do ensino médio, uma organização que trouxe críticas à administração pública, mas acho que não há uma correlação. Aquele movimento teve um significado político, mas nesse contexto não refletiu significativamente uma continuidade", afirma Eduardo Cambi, promotor de justiça e coordenador do Geração Atitude, projeto ligado ao movimento Paraná Sem Corrupção, que visa a formação cidadã de jovens e adolescentes. O projeto tem a parceria da Secretaria Estadual da Educação.
O levantamento do MP contou com a participação de 10.952 alunos de ensino médio de 176 escolas públicas do estado. Realizado em outubro de 2017, teve o objetivo de investigar o conhecimento dos jovens sobre temas relacionados à cidadania e à política.
O resultado da pesquisa gera preocupação no coordenador do projeto. Além de não demonstrarem empenho pela participação em grêmios estudantis, os jovens foram questionados quanto às eleições de diretores dos colégios e mesmo às eleições gerais de 2018, para escolha de deputados, senadores, governador e presidente. "São alunos do ensino médio que já podem votar, participar das eleições, e eles estão realmente com pouca expectativa. Além disso, há uma baixa percepção da democracia e da política", frisa Cambi. "Isso é grave porque tem por outro lado pessoas mais velhas que também estão desiludidas com a política, com o Brasil, e quando esse desânimo atinge os jovens a perspectiva de mudança é muito baixa."
Em Londrina, mais de 20 escolas foram ocupadas durante o período que ficou conhecido como "Primavera Secundarista". Uma das instituições que esteve presente nos protestos e manteve o grêmio estudantil em curso foi o Colégio Estadual Hugo Simas (área central). "Nós reativamos o grêmio estudantil em 2016, eles começaram tomando muitas decisões importantes, estruturaram. No fim daquele ano o presidente se formou e em 2017 foi constituída uma nova chapa, realizadas novas eleições e esse processo mexeu de novo com os alunos", apontou Sandra Regina Denipoti, diretora do colégio.
O grêmio não conseguiu ser tão atuante em 2017 como foi em 2016, até por causa do processo de eleição. Depois, novos trabalhos começaram a ser realizados no colégio. "Nós propusemos algumas reformas, (como na) quadra, auditório, bebedouros. Duas coisas já estamos colocando em prática, que é a rádio da escola, que começou a funcionar no primeiro dia de aula, e o alistamento para os grupos escolares, que serão temáticos, como grupos de dança, música, literatura, debate", explicou Noádia da Silva Tenório, 18, que está no 2º ano e é a presidente do grêmio estudantil.
Tenório concorda com os dados apresentados pela pesquisa do MP. Segundo ela, mesmo nas eleições foi possível constatar o desinteresse dos alunos. "A maioria votou mais nos amigos na eleição do que no grêmio. Nós vencemos, mas a realidade é que grande parte não se importa muito."
'Há um cenário negativo da política'
O professor de filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Elve Cenci, apontou diversos fatores que podem ter contribuído para o atual desinteresse de jovens e adolescentes na política. Segundo o docente, a desmoralização da política por meio de exposições desnecessárias a transformando num "caso de polícia" é um dos principais problemas.
"A política está sendo passada a limpo e não é por meio do debate político, mas por um jornalismo policial, principalmente a partir da [Operação] Lava Jato. Há um cenário negativo da política, não dá para afirmar que tenha realmente piorado, mas o fato é que ela vem sendo dissecada nos últimos tempos", frisou Cenci. "Como alguém pode ser estimulado a participar de um processo que é contaminado? Hoje é um assunto muito mais de polícia que de política, isso tira aquela ideia de espaço de efetivação de sonhos e projetos de como melhorar a sociedade."
Os partidos políticos e a atual estrutura do sistema no Brasil também são desestimulantes aos alunos entrevistados. A falta de comprometimento ideológico e de renovação dentro desses partidos também são agravantes. "A participação política do jovem se dava pelos partidos e eles têm apresentado cada vez mais problemas. Um deles é o esvaziamento ideológico, de conjunto de propostas, não dá para identificar na maioria deles um compromisso pragmático e uma coerência mínima", apontou o docente. "(Lideranças dos partidos) hoje têm 70 anos; não há mais a participação (dos jovens); até existe uma falsa renovação, mas hoje a maioria dos jovens da Câmara e da Assembleia é filho deles."
As manifestações realizadas em junho de 2013, cuja principal bandeira era a redução dos preços das passagens de ônibus, foram, para Cenci, o último grande ato organizado pelos jovens. A partir daí, o cenário radical mudou os rumos do processo. "As ocupações de 2016 foram importantes, mas feitas por grupos com postura mais ativa de militância nas escolas, são movimentos que surgem e se estruturam em momentos mais determinados. Claro que há esse grupo que se organiza em torno dessas bandeiras e que defendem isso, e era isso o que acontecia e anteriormente eles iriam parar na política, mas isso não acontece mais até pela falta de interesse."
Com supervisão de Lucilia Okamura
Editora Cidades
Desconhecimento sobre o funcionamento das instituições
A pesquisa desenvolvida pelo Ministério Público abordou temas como cidadania, política, eleições, voto consciente e o funcionamento dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Os dados finais mostraram jovens desacreditados e pouco envolvidos com o assunto. Em ano de eleições para deputados, senadores, governador e presidente, os estudantes demonstraram ceticismo nas ideias apresentadas. Mais de 74% dos mais de 10 mil alunos entrevistados não acreditam que deputados estaduais e federais representem realmente a população. Os senadores têm rejeição de 75,4%, o governador desagrada 77,8% dos entrevistados e o presidente da República é o mais desacreditado na pesquisa: 81% não confiam na autoridade do atual chefe de governo.
Apenas 33% dos participantes da pesquisa com idade entre 16 e 18 anos disseram ter tirado título de eleitor. Além disso, 68% concordaram parcial ou totalmente com a frase "os políticos são todos corruptos". Corrupção, entretanto, que não encontra grandes barreiras entre 19,8% dos pesquisados, pois 14,2% concordam totalmente e 5,6% parcialmente com a frase: "Venderia meu voto por R$ 1 mil".
As respostas a questões ligadas à cidadania e à representação política mostram desconhecimento quanto ao funcionamento das instituições. Responderam não saber o que é a Constituição Federal 41,2% dos alunos. E o que faz um deputado estadual? 41% dos estudantes não sabem, assim como 33% não têm ideia do que faz um juiz de Direito, e 39,3% dizem o mesmo do Ministério Público.
O promotor de Justiça Eduardo Cambi, coordenador do Geração Atitude, viu o resultado da pesquisa com preocupação, especialmente no que se refere à passividade revelada pelos estudantes. "Eles acreditam que a corrupção é um dos grandes problemas do país e que os políticos não representam adequadamente a sociedade, mas não tomam atitudes para mudar esse quadro. São pouquíssimos os que têm interesse pela política e que participam de atividades de cidadania, dentro ou fora da escola. Ou seja, os jovens acreditam que a situação está ruim, mas pouco ou nada fazem para mudá-la e parecem não acreditar na força da participação popular."
A política estudantil também não é atraente aos olhos dos estudantes, já que 55,5% nunca participaram ou nem sabiam que existiam eleições para diretores dos colégios. Apenas 5,9% responderam positivamente para alguma participação no movimento estudantil, enquanto 56% jamais foram e 38% foram poucas vezes a reuniões. Na pergunta feita de maneira direta questionado se o estudante se interessava ou não pela política, apenas 37,7% acenaram positivamente. (Reportagem Local)


