O argumento de setores do governo federal de que o desemprego atinge principalmente a mão-de-obra não especializada perde a consistência diante de casos que proliferam nas cidades grandes e médias. Na Região Metropolitana de Curitiba, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômicos (Dieese) estima que 18% da população economicamente ativa, ou seja, 180 mil pessoas, estão desempregadas. Desse total, dois de cada dez profissionais teriam curso superior.
O supervisor técnico do Dieese, Cid Cordeiro, afirma que o desemprego está afetando todas as faixas sócio-econômicas. A psicóloga Alessandra Oresten, da empresa Leader Administração e Recursos Humanos, concorda: ‘‘Mesmo aqueles com boa qualificação estão tendo dificuldade e se reinserir no mercado de trabalho’’. Para a psicóloga, estes profissionais estão sendo cobrados por um nível de exigência acima dos parâmetros obedecidos no Estado antes da chegada das indústrias multinacionais. ‘‘É uma qualificação que era comum em São Paulo e que no Paraná ainda não estava formada’’, diz.
O caso do administrador de empresas C. N., 38 anos, que tem três cursos de pós-graduação, ocupou altos cargos em grandes empresas e está desempregado há quase dois anos é um exemplo de como o trabalhador qualificado da classe média também sofreu - e sofre - o golpe da recessão. Nesses dois anos de fila do Sempre e agências de emprego, Carlos também percebeu que existe um sistema engessando o desempregado nesta condição.
‘‘O único argumento palpável para que o meu currículo não seja aceito é o de que não domino o Inglês, mas desempregado há tanto tempo não tenho como pagar uma escola e os cursos oferecidos gratuitamente nos programas governamentais são picaretas’’, denuncia. ‘‘Para onde vão os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador?’’, completa.
Na fila Nas agências de emprego, Carlos diz que cansou de passar fome e sede em pé para ser atendido e depois ainda ser mal tratado. ‘‘Isso sem contar algumas agências que funcionam para extorquir uns trocados de quem já não tem dinheiro algum’’, diz o administrador de empresas. No entanto, a Delegacia Regional do Trabalho informa que a cobrança é ilegal e que todas as emrpesas são fiscalizadas.
Carlos critica os mais diversos segmentos, das igrejas aos sindicatos, que ‘‘promovem muitos debates sobre o tema e se dizem indignados, mas de prático fazem muito pouco’’. O desempregado que continua nesta situação fica sem ter como pagar água, luz e telefone. ‘‘Sem telefone, nem podemos ser chamados para uma vaga, caso ela apareça de uma hora para outra’’, explica.
Vivendo de ‘bicos’, Carlos considera esta mais uma exploração sobre o desemprego. ‘‘Sem ser contratado, fico à mercê do que eles quiserem me pagar. Se vender meu patrimônio agora receberei um quinto do valor. O desemprego hoje é um poço de onde é quase impossível de sair’’, desabafa.

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