Ao lado do posto policial rodoviário do Contorno Sul, na BR-277, em Curitiba, um grupo de 40 homens busca sobreviver na beira do asfalto. A jornada começa cedo. Por volta das 5 horas da manhã, eles já estão acordados para acompanhar o vai e vem de caminhões que trafegam pela rodovia. Esta mão de obra conhecida pejorativamente pela expressão ‘‘chapa’’, que não conhece o que é carteira assinada ou o perigo de ser atropelado, aumentou consideravelmente na BR-277 por causa do desemprego. Entre 100 a 150 homens tentam ganhar a vida na rodovia. Até pouco tempo, este contigente não chegava a 50.
Um caminhão que pára no acostamento é sinal de trabalho. Inicia-se a correria. A cabine é cercada pelos chapas. Eles se oferecem para ajudar a descarregar a carga e mostrar ao motorista que não conhece a região de Curitiba um caminho para localizar o destino da mercadoria. A afobação na hora de correr atrás dos caminhões já custou a vida de três amigos de José Gregori, 38 anos, que trabalha há 15 anos como chapa. Eles foram atropelados.
‘‘O recurso da gente sobreviver é assim. Isso aqui é uma verdadeira loucura, pois pegamos qualquer serviço. É um trabalho honesto, mas perigoso’’, confessa. José incorporou definitivamente a profissão em sua rotina. Ele alega não conseguir outros empregos diante da falta de qualificações que as empresas exigem. ‘‘Entendo o lado deles. Eles são heróis paranaenses porque não têm outra opção de vida’’, diz Hilário Onofre, 49 anos, dono de uma transportadora em Foz do Iguaçu.
Há 20 anos, o único ponto de chapas existentes na BR-277 se concentrava ao lado do posto policial rodoviário do Contorno Sul. Informações colhidas com os próprios carregadores indicam que só no trecho de 30 quilômetros entre a capital e o município de Campo Largo existam atualmente oito pontos e entre 100 a 150 homens oferecendo trabalho braçal na beira da pista. Os meses de fevereiro e março não costumam ser bons períodos para os chapas. É a época de escoamento da safra agrícola e a oferta de trabalho fica reduzida.
A implantação do pedágio também refletiu no cotidiano destes trabalhadores. O chapa José Gregori diz que chegava a receber R$ 600,00 por mês antes da cobrança da tarifa nas estradas. Agora, o salário baixou para R$ 120,00. Ele indica que o pedágio teve influência direta na redução, já que os caminhoneiros alegam que parte do dinheiro ficou nas praças das empresas concessionários que exploram a cobrança. ‘‘O pedágio estragou nosso salário ainda mais, pois o chapa tem que dividir o preço do seu trabalho com a tarifa’’, diz José.
Entre os chapas, ‘‘quem correr mais chora menos’’, segundo Jesus Morreira, 44 anos, e há seis anos trabalhando como carregador. A interpretação do jargão é bem simples. Aqueles que chegarem na frente para negociar o preço com o caminhoneiro têm mais chances de arrumar serviço. Ao contrário de muitos colegas, Jesus afirma que gosta do que faz. ‘‘É melhor do que ser empregado dos outros’’, justifica.

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