Desempregada quer vender rim
Lucinéia Parra
De Maringá
A dona-de-casa Cleusa Dias, 43 anos, quer vender um rim para pagar contas atrasadas e ainda comprar uma casa. Ela e o marido, o funileiro Lauro Assis Dias, 42, estão desempregados há quase um ano e passam por dificuldades financeiras. O marido, segundo Cleusa, teve a idéia da comercialização do órgão e também está disposto a vender o rim dele. O casal espera conseguir R$ 10 mil com a venda dos dois rins.
Ontem, ao ser procurada pela reportagem da Folha na casa onde mora, em Sarandi (7 km ao norte de Maringá), Cleusa logo indagou: Vocês vieram me prender?. Ela disse que só depois que começou a divulgar que está interessada em vender o órgão, ficou sabendo que o ato é ilegal. Mesmo assim, ela confirmou ontem que vai seguir em frente e que ainda está disposta a permitir a retirada do rim para vendê-lo. Se eu não fizer isso não sei o que o que vai ser. O meu aluguel está atrasado há quatro meses, minha conta de água e luz também. E nem eu, nem meu marido e o meu filho conseguimos emprego, desabafou.
Cleusa disse que a idéia do marido surgiu após uma reportagem na televisão sobre uma família nos Estados Unidos que tinha interesse em comprar um rim para salvar a vida de um parente. Ao terminar a reportagem, segundo Cleusa, o marido dela teria afirmado que se fosse no Brasil teria coragem de procurar a família para vender um dos seus rins. Até o filho do casal, de 16 anos, também estava interessado na venda do órgão, mas depois que ficou sabendo que a prática é ilegal, desistiu. Cleusa diz que é pasteleira, cozinheira e pizzaiola. Já trabalhei muito e não tenho medo de trabalho, mas agora eu não consigo mais emprego. Não sei se é a idade, a gordura ou porque não sou bonita, mas o fato é que não consigo mais emprego.
De acordo com a coordenadora da Central de Transplantes de Maringá, Márcia de Fátima Serra, a venda de órgãos é proibida de acordo com a Lei 9.434/97. O artigo 5º da lei prevê que a compra e venda de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano é proibida sob pena de reclusão de três a oito anos. Quem intermediar, facilitar ou auferir qualquer transação de comércio de órgãos humano também incorre na ilegalidade e está sujeito às mesmas penalidades. - A gente lamenta a situação econômica desta família, mas a venda de órgãos é absolutamente ilegal. A lei prevê doação de rins entre vivos, mas o próprio nome já diz, é doação; e tudo tem que ser feito depois de exames de compatibilidade. Não basta a pessoa dizer que quer vender, justificou.





