DESEMPENHO NA EDUCAÇÃO - Dificuldades para ler e calcular
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quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Aline Machado Parodi<br>Reportagem Local 
O desempenho dos alunos do terceiro ano do Ensino Fundamental na prova da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), aplicada ano passado em 2.456.132 estudantes de escolas municipais e estaduais de todo o País, deixou a desejar. Os resultados da avaliação divulgados em setembro pelo Ministério da Educação (MEC) mostraram que um em cada cinco estudantes brasileiros não consegue compreender frases curtas, 57,17% têm dificuldade em fazer operações simples de matemática e 34,46% têm dificuldades com a escrita.
Na média geral, estudantes da Região Metropolitana de Londrina ganharam "estrelinhas" na ANA, mas quando se faz um recorte dos dados percebe-se as dificuldades das crianças, principalmente em relação à leitura e à matemática. Oitenta e três escolas de Londrina participaram da ANA e 5.271 alunos fizeram a prova, compostas por questões de múltipla escolha de língua portuguesa (17), matemática (20) e produção escrita (3).
Os dados mostram que é necessário evoluir na alfabetização das crianças. Na divulgação dos resultado, o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Chico Soares, afirmou que a ANA é um importante referencial.
O resultado da prova revelou uma diferença de desempenho entre os alunos das escolas rurais e urbanas. Os estudantes da área rural de Londrina e Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) tiveram resultados inferiores em leitura e matemática. Em Londrina, 18,23% das crianças da zona rural que fizeram a prova tiveram desempenho insatisfatórios em leitura e 47,46%, em matemática. Nas escolas urbanas o desempenho insatisfatório foi de 9% em leitura e 35,71% em matemática.
As diferenças também são grandes em Arapongas. Em leitura, o percentual insatisfatório foi de 8,8% na área urbana e 16,55% na área rual; em escrita foi de 15,69% nas escolas urbanas e 30,41% na rural; e 43,55% dos alunos das escolas instaladas na cidade receberam nota baixa em matemática contra 67,32% dos alunos das escolas rurais.
O contexto de vida das crianças da zona rural, o pequeno número de alunos por turmas e a maneira como as questões da prova são formuladas são apontados como justificativas para a diferença de desempenho. A secretária de Educação de Londrina, Janet Thomas, afirma que o conhecimento de mundo da criança da zona rural não condiz com o que é perguntado a ela na prova e que as crianças da área urbana têm um estímulo maior para a leitura. "O estímulo para a leitura é maior na área urbana do que na rural. A criança tem placas, outdoors, ônibus, cartazes para ler. Os pais também utilizam e estimulam mais a significância das palavras nos centros urbanos", afirmou Janet.
A secretária enfatizou que a ANA tem um peso menor na tomada de decisões da pasta, porque o município aplica duas vezes por ano uma prova sistêmica e faz uma análise qualitativa dos resultados. Em 2013, verificou-se que os alunos tiveram dificuldade em responder questões de matemática que utilizavam variável de tempo. As equipes pedagógicas realizaram um trabalho pontual com os professores e no ano seguinte os resultados na prova foram positivos.
Mas Janet afirma que a avaliação nacional serve para comparar o desempenho com outros municípios e critica o fato de, a partir deste ano, a prova só ser aplicada nos municípios que se cadastrarem, o que pode mascarar a realidade da alfabetização no Brasil. "A avaliação é positiva. Podemos ver onde devemos melhor. É importante ter esse feedback sobre as escolas, assim conseguimos trabalhar mais pontualmente. São dados bons para a gestão discutir os pontos e metas", declarou a secretária.
LEITURA
Pedagogicamente não existem diferenciações entre a maneira de ensino entre os estudantes da área rural e urbana, mas de acordo com a pedagoga Marlizete Bonafini Steinle, professora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o professor precisa compreender o contexto dos alunos, trabalhar com a diversidade que as escolas apresentam e ter foco na especificidade de cada estudante.
Segundo ela, a influência dos estímulos externos à leitura é grande, mas não decisório no aprendizado do aluno. "A grande questão é que a leitura é vista como uma atribuição da escola. E é no processo de construção de alfabetização, mas tem que ser vista também no cotidiano da criança. O País não tem a cultura de ler. O livro não é visto como um objeto de pegar. Ele deveria fazer parte da vida da criança desde bebê. O hábito da leitura é algo despertado pelo exemplo e os pais não costumam ser modelos de leitura", comentou a pedagoga.
Marlizete enfatizou que "é fundamental cada sistema de ensino analisar em que medida a nota da ANA reflete o que realmente o aluno sabe e dai traçar metas. Essas avaliações deveriam ser voltadas mais ao aprendizado dos alunos do que para ranqueamentos ou políticas públicas".
A Avaliação Nacional de Alfabetização é realizada nas escolas públicas que tenham, matriculados, estudantes no terceiro ano do Ensino Fundamental. Em 2013, 55.836 escolas brasileiras participaram da avaliação. Em 2014, foram 49.791. A avaliação integra o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, compromisso firmado pelos governos federal, estaduais e do Distrito Federal e administrações municipais. A meta central é assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas aos 8 anos de idade até o fim do terceiro ano do Ensino Fundamental.


