A mãe de santo Yá Mukumbi, a mãe e a neta dela foram assassinadas em casa por um vizinho em agosto de 2013, em Londrina. No Rio de Janeiro, uma menina de apenas 11 anos foi apedrejada ao sair de um culto de Candomblé em junho deste ano. No final do mês passado, em Brasília (DF), mais um terreiro foi incendiado. Todos estes fatos têm algo em comum: a suspeita de terem sido motivados por intolerância religiosa.
Lideranças religiosas concordam que os episódios envolvendo a intolerância com as religiões estão aumentando em todo lugar. "Nos diversos Estados do País você vê que a intolerância vem crescendo, seja dentro das escolas - porque nossos filhos e filhas de santos não podem ir com suas guias, suas roupas -, seja na própria comunicação, porque os espaços de mídia colocam os terreiros com uma imagem negativa", opina Ogan Marmo de Oxossi, coordenador nacional da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro). Juntamente com o Ylê Axé Ópó Omim I, um dos núcleos do Renafro em Londrina, a entidade realizou no último fim de semana em Londrina o 7º Encontro Municipal da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde e o 4º Encontro Municipal de Mulheres de Axé para discutir, entre outros assuntos, o respeito à diversidade religiosa.
Mesmo na região de Londrina, a exemplo do que aconteceu Yá Mukumbi, os episódios de intolerância são crescentes. A Mãe Omin, do Ylê Axé Ópó Omim I, conta que ainda é comum as pessoas reclamarem do som do terreiro, atirarem pedras no local e discriminarem crianças que vão à escola vestidas com roupas tradicionais.
"As pessoas não entendem, não sabem. Se veem terreiro tocando, batem na porta, põem papeizinhos e quando vamos atrás, nem sabem do que se trata. Tacam pedras nos terreiros. Estamos num alerta muito grande. Em eventos assim (como o Encontro da Renafro) ficamos até preocupados com a porta. Temos dias sagrados de cor de roupa, fio de conta, pano na cabeça, boné, e a escola maltrata se não tem conhecimento. Os amigos maltratam, xingam, chutam", conta a Mãe Omin, que estima que existam hoje mais de 400 terreiros em Londrina. Só no Ylê Axé Ópó Omim I, são mais de mil frequentadores.
A insegurança pela qual passa quem é de religião afro-brasileira afeta até mesmo a saúde. Para o coordenador nacional da Renafro, o racismo e a intolerância religiosa são as principais doenças a serem combatidas nesta comunidade. Por este motivo, a saúde também é uma preocupação dentro dos terreiros, bem como o bem-estar da mulher, que ocupa posição de destaque nas religiões afro-brasileiras. "Nossa tradição é matriarcal, e a maioria de nossas lideranças são mulheres e negras", explica Mãe Nilce de Iansã, secretária executiva da Renafro e coordenadora Nacional do GT Mulheres de Axé.
"Estamos sofrendo, e essa angústia é um distúrbio que faz mal à saúde. Quanta gente temos com problema mental, depressão, por que tem medo de tocar, atender, rezar, benzer, abrir as portas?", acrescenta a Mãe Omin.
A dona de casa Ana Rute veio de Rolândia para o encontro do Renafro em Londrina. Ela conta que sofre diariamente com o preconceito no bairro onde vive e que teme pelo futuro da filha pequena. "Quando você fala que é de Umbanda as pessoas viram a cara, não conversam. Elas não pensam que a Umbanda faz o bem, só que faz o mal."
Para Mãe Nilce, a principal causa da intolerância religiosa é o desconhecimento. "As pessoas desconhecem o trabalho feito dentro de uma comunidade de terreiro. Elas têm um imaginário negativo sobre nossa tradição por desconhecimento, daí a intolerância. Por isso é importante falar de nossas ações, para que diminua a intolerância religiosa e o desrespeito às nossas práticas, saberes e tradições."
As discussões geradas nos dois eventos que terminaram domingo vão resultar em um documento que será enviado a autoridades municipais, estaduais e federais.

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