DESCOBERTA - Tibagi revela nova espécie de peixe
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quinta-feira, 27 de julho de 2006
Vanessa NavarroReportagem Local 
Fazia apenas 24 horas que a pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Sirlei Bennemann havia chegado à aldeia kaingang Mococa, em Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana), quando o Rio Tibagi lhe deu o que mais aguardava: uma nova espécie de peixe, jamais catalogada. O achado confirmou o prognóstico de biólogos de que o Médio Tibagi, tido como região de ernome biodiversidade, abriga um número inestimável de seres vivos ainda não estudados.
O tesouro descoberto por Sirlei há uma semana - durante três dias de pesquisas que a Folha acompanhou na aldeia - é uma espécie de cascudo, marcado por várias diferenças em relação a outros peixes do gênero (leia mais nessa página). O pesquisador Fernando Jerep - estudioso dos cascudos que analisou o animal - lembrou que alguns exemplares da espécie foram coletados nos anos 90, mas que até hoje ela não foi descrita ou nominada. ''Este peixe havia desaparecido'', observou.
É no mínimo emblemático que o local onde foram registradas as últimas aparições da espécie de cascudo seja a porção do Rio Paranapanema atingida pela Represa Capivara. Agora, o peixe é reencontrado justamente em região ameaçada por uma hidrelétrica, a Usina Mauá. ''O Tibagi pode ter sido um refúgio para os peixes que viviam próximos à barragem'', avalia Jerep.
O novo cascudo e outras espécies coletadas por Sirlei são reveladoras sobre as condições do rio Tibagi e seu afluente, Mococa. Segundo ela, o lambari do rabo vermelho, por exemplo, só está presente em riachos de boa qualidade. O mesmo se aplica a um minúsculo peixe que seria parente do candiru - famoso por penetrar na uretra e outros orifícios do corpo humano. ''Essas espécies são indicadoras de qualidade e mostram que o ambiente está sem grandes alterações. Com a hidrelétrica, vão desaparecer quase todas'', alerta.
A pesquisadora participou do estudo interdisciplinar realizado ao longo de 13 anos na Bacia do Rio Tibagi e que identificou 110 espécies de peixes. Conhecedora da riqueza faunística do rio, ela vem lutando para preservá-lo. ''O Barra Grande e o Mococa (dois dos rios que passam pela reserva de Mococa) nunca foram estudados e guardam muitas peculiaridades. Se a hidrelétrica sair, muitas coisas que não foram colocadas em livro nenhum vão desaparecer sem que tenhamos sabido que existiram'', afirma.
Com a ajuda de pescadores embarcados no Tibagi, Sirlei conseguiu seis espécies diferentes de cascudos. No Mococa, contou com a cooperação dos índios, que lançaram redes e armaram o tradicional pari (armadilha de pesca feita de taquara trançada). Na manhã seguinte, enfrentaram temperatura em torno de 12ºC para apanhar os peixes que ficaram retidos. Pelo menos cinco espécies foram distinguidas entre as várias amostras coletadas no rio homônimo à reserva indígena.
Na aldeia, crianças faziam círculo para ver os peixes trazidos pela professora da UEL e ouvir suas explicações. Meninos e meninas demonstravam que seu povo tem intimidade com a fauna fluvial desde cedo: olhando para as amostras e as ilustrações apontadas por Sirlei em livros, sabiam identificar vários peixes na língua kaingang.
Albino Fér Káng Bento, 41, observa que a pesca já foi mais abundante. ''Naquela época dos antigos tinha mais peixe. Agora tá difícil'', comenta. A atual seca, que vários índios disseram ter testemunhado ''uma ou duas vezes'' na vida, também preocupa o povo da aldeia. ''O Tibagi baixou uns três metros. Pior é que, com isso, vêm também as queimadas'', diz Bento. Quando perguntamos ao ex-cacique Salvador, 66, o que estaria provocando tamanha seca, ele desconversa: ''A gente tem que ficar quieto e ter fé em Deus.''


