DESCIDA RADICAL - O Tibagi de ponta a ponta
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sábado, 03 de maio de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Pode até parecer coisa de maluco, mas não é. Na verdade, é muito mais do que ''maluquice'', é vontade de descobrir, aprender e, além de tudo, um gosto danado pela aventura e pela água. O fato é que um grupo de amigos, todos pés vermelhos, acaba de concluir uma proeza. Os caras colocaram os caiaques na água e percorreram o Tibagi de ponta a ponta, coisa que não é para qualquer um. São 560 km de remadas no rio que está entre os mais importantes do Estado. O percurso começou pra lá de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, a mais de mil metros de altitude - onde está a nascente - e só terminou nas águas da Represa Capivara, pertinho do Estado de São Paulo, com altitude de 298 metros.
Seria bom se todo paranaense tivesse a oportunidade que Edelcio Palhares, Claudiney Gloor, Fernando Imazu Santana e Eric Yu Park tiveram de ''contato de primeiro grau'' com o rio, com a natureza e com alguns cenários que estão próximos de desaparecer, já que daqui a pouco tempo usinas hidrelétricas devem ser construídas no Tibagi. Como não tem caiaque pra todo mundo, eles contam a proeza para que a FOLHA espalhe como foi a experiência.
Não faltam histórias. Foram necessários seis finais de semana para que o grupo, que integra a Patrulha das Águas, conseguisse igualar o feito do geógrafo Reinhard Maak, que desceu o Tibagi de canoa em 1967. ''Vimos os relatos de Maak sobre a descida do Tibagi, achamos fascinante e também resolvemos percorrer o rio. Foi coisa de desbravador mesmo'', diz Edélcio Palhares, o líder do grupo.
O que o Tibagi revelou aos desbravadores de caiaque? Coisas boas e ruins, cenários alegres e tristes. Segundo eles, tem pontos do rio que enchem os olhos, tamanha a beleza da flora, como por perto de Telêmaco Borba. Porém, há regiões nas quais os pastos e lavouras chegam às beiras das águas do rio, principalmente na região de Tamarana e Londrina.
''Perto de Carambeí (20 km ao norte de Ponta Grossa), depois de algumas horas de chuva, encontramos uma quantidade enorme de peixes mortos. Isso provavelmente aconteceu por causa de agrotóxicos que escorreram para o rio'', lamenta Palhares. ''Por outro lado, mais adiante, um bando de mais de 20 capivaras nadando no rio. Uma cena linda'', recorda Santana. Conforme foram descendo, surpresas os pés vermelhos foram encontrando. Na região de Ponta Grossa, os portos de areia predominam. Mais para baixo, são as balsas de garimpo.
O extrativismo no rio - regularizado ou não - dá sustento para um monte de gente. O grupo de canoístas conta sobre a cena de um pessoal que tira areia do rio, em Tibagi (101 km ao norte de Ponta Grossa), na base da força física, sem qualquer maquinário. Com pás, eles cavam o fundo do rio, retiram areia e colocam em baldes. Um serviço lento, arcaico e não muito lucrativo.
Mais impressionante e provavelmente também mais lucrativo é o garimpo de diamantes. ''São quase 20 balsas. Ao final de cada corredeira tem uma'', afirma Palhares. ''E tem muita gente aqui da região de Londrina que nem acredita que existem diamantes no Tibagi'', completa.
Mergulhadores que se aventuram nas profundezas do rio procurando pedras preciosas, os garimpeiros do Tibagi ajudaram a turma da Patrulha em um dos momentos de maior apuro. A noite caiu antes que eles pudessem encontrar o pessoal que fica em terra fazendo o apoio. Perdidos e no escuro, tiveram a sorte de achar uma balsa, que se tornou o abrigo para aquela noite.
''Até beliche tem nas balsas. Como alguns garimpeiros tinham ido para a cidade, havia lugar. Um 'mineiro' nos acolheu muito bem, fez até arroz e carne para comermos'', conta Gloor.
E por falar no pessoal do apoio, vale a pena escutar a fala de um dos três amigos que faz o trabalho de garantir o descanso e a logística. ''Sempre ficamos desesperados, na beira do rio, esperando que eles cheguem no lugar e no horário combinado. Sabemos que são vidas de amigos que estão na água'', diz Rogério Rato. O time de apoiadores se completa com Marcos Albuquerque e João Norberto.
Cada um dos canoístas gastou em torno de R$ 1,2 mil do próprio bolso. Andar de caiaque é lazer para os quatro, todos têm outras profissões. No final das contas, são unânimes ao afirmar que vale a pena colocar a mão no bolso e enfrentar chuva, sol, lama e poeira. ''Conhecer um dos maiores rios do Paraná é indescritível. Cada corredeira é uma emoção diferente. Estamos felizes, mas também tristes por saber que boa parte do rio vai ser inundada e muitas belezas ficarão submersas'', finaliza Palhares. Nos projetos do grupo, agora, está a descida do Rio Ivaí.


