Edinelson Alves
De Rolândia - Especial para a Folha
No momento em que o navio da novela Terra Nostra apareceu revivendo a saga de milhares de italianos que aqui chegaram no início do século, descendentes daqueles imigrantes corriam atrás de antigos documentos em busca da cidadania para fazer a viagem de volta em busca de melhores condições de vida. Só no consulado de Curitiba, com jurisdição no Paraná e Santa Catarina, são 4 mil pedidos de reconhecimento por ano.
Desses, segundo Daniela Emanuele, do Departamento de Cidadania, pelo menos 80% conseguem legalização. O interesse aumentou a partir 7 de junho de 1996, quando foi aprovada a emenda constitucional que garante aos brasileiros a dupla cidadania.
Desde então, milhares de filhos, netos e bisnetos dos pioneiros italianos começaram a correr atrás dos documentos. O passaporte italiano não significa apenas a oportunidade de morar na Itália, mas também dá direito a viver em outros 14 países que integram a Comunidade Européia, onde as leis de residência e trabalho são comuns.
Giuseppe Miniello, 70 anos, morador de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), conhece muito bem essa história. Ele nasceu na Itália, veio para o Brasil, retornou para a Itália e finalmente optou por ficar aqui. Para ele, a colonização italiana não é mera ficção, mas pura realidade.
Quando assiste aos capítulos de Terra Nostra, não consegue conter a emoção. Recorda que sentiu na pele, juntamente com outros cinco irmãos, quão difícil foi deixar os pais na Itália, atravessar o Atlântico, para recomeçar a vida aqui. Ele não fez parte dos pioneiros retratados na produção da Rede Globo, mas também veio em um período difícil.
Giuseppe foi forçado, como milhões de outros europeus, a sair do Velho Mundo no pós-guerra de 1945. ‘‘Deixamos para trás uma terra arrasada pela guerra e que não oferecia nenhuma perspectiva. O Brasil para nós significava uma terra prometida’’.
Era início de 1953 quando Giuseppe e seus cinco irmãos tiveram que emigrar. ‘‘A cena mais triste mostrada pela novela é aquela do navio. É muito real. Eu paguei a minha passagem e embarquei num navio um pouco melhor. Mas os meus irmãos que ganharam a passagem do governo enfrentaram toda aquela dificuldade. Excesso de passageiros e um cheiro de morte porque as embarcações haviam sido utilizadas durante a 2ª Guerra e estavam em estado precário. Chegar vivo ao Brasil, depois da longa viagem em alto-mar já era uma vitória. Como aqui havia muitas oportunidades de trabalho e um clima de muita paz, isso nos ajudou a superar as dificuldades de adaptação’’.
Mas Giuseppe enfrentou um desencontro quando chegou. Ele perguntou para a tripulação qual porto ficava mais perto da cidade de Rolândia, no Paraná. Responderam que era o do Rio de Janeiro. Lá, ele desembarcou, mas seu irmão o esperava em Santos. Os dois só se encontraram uma semana depois. O imigrante recorda que aqui trabalhou na construção de estradas, foi agricultor e também comerciante.
Mas a compra de uma propriedade em Minas Gerais não deu o resultado esperado. Então, ele decidiu, em 1990, voltar para a Itália com parte da família que quis acompanhá-lo. ‘‘Encontrei uma outra Itália, desenvolvida, com muitas oportunidades de trabalho e uma boa condição para toda classe trabalhadora’’. Quatro anos depois, retornou com a família para o Brasil. ‘‘Sabemos que os brasileiros enfrentam um momento muito difícil. Mas sem sofrimento não há desenvolvimento. Por isso, temos que pagar o preço’’, conforta-se.
Genro de Giuseppe, José Eurides Moura, não hesitou quando soube que o sogro iria retornar para a Itália. Com a mulher Ângela, um casal de filhos, ele conta que não teve dificuldades para se adaptar na pequena cidade de Guglionesi, província de Campobasso, a quatro quilômetros da praia e pouco mais de duas horas de Roma.
Enquanto não saía os documentos, trabalhou na colheita de frutas e verduras ganhando uma média de 40 dólares por dia. Assim que ganhou a cidadania, começou a trabalhar como caminhoneiro. ‘‘Fiz dezenas de viagens pela Europa e conheci diversos países. Foi um privilégio ter conhecido lugares tão lindos que nem imaginava existir’’.
Entre as cidades, destaca a beleza de Veneza e não esconde sua paixão pela Suíça. ‘‘A organização e as paisagens da Suíça são inesquecíveis’’.
Quebrada a resistência inicial que o europeu tem em relação aos estrangeiros, José Eurides conta que estava plenamente adaptado à vida italiana. ‘‘Ali tínhamos muita segurança, oportunidades de trabalho e muitas opções de lazer’’.
Ângela, que lá ganhou seu filho caçula, Francesco, elogia o sistema de saúde e educacional. ‘‘Fiz o parto, tive toda assistência e não gastei um centavo. As crianças também estudaram em escola pública de alto nível e se adaptaram tão bem que não queriam voltar’’, relata.
A decisão da volta de Giuseppe fez com que José Eurides e Ângela também voltassem. ‘‘Fomos juntos e decidimos voltar juntos, mas não descartamos o retorno para a Itália. Foi uma experiência muito boa, conseguimos trazer algumas economias que jamais conseguiríamos ganhar aqui. Temos a cidadania e até um filho italiano. Tudo isso pode pesar na nossa decisão’’.
Outro rolandense que tentou a sorte na Itália é João Carlos Borges, que por parte da mãe é da família De Angelis. Em 1989, com 21 anos, recolheu toda a documentação e foi tentar a legalização lá, juntamente com seu amigo Amauri Zambom. A cidadania só saiu um ano e meio depois. Nesse período ele trabalhou na roça e fez diversos bicos na província de Campobasso. Depois mudou-se para Milão, no norte, região industrial da Itália onde chegou a ganhar, com horas extras, US$ 1.500 por mês.
‘‘Mas o custo de vida era muito e a virada do câmbio no Brasil que passou a valer, na época, igual ao dólar, fez com que as minhas economias se encolhessem, pois diminuiu o meu poder de compra aqui, onde eu planejava investir. Somado isso às próprias condições de viver como um estrangeiro, fez com que eu e o meu amigo voltássemos’’.
João Carlos diz que sentiu na pele a discriminação. ‘‘Na província de Campobasso, no centro-sul, predomina a agricultura e existe um clima de maior proximidade entre as pessoas, mas no norte industrial a coisa é bem diferente. Tanto que eles discriminam os sulistas, sempre alegando que os nortistas é que sustentam a Itália.’’
Em cerca de cinco anos, conta que economizou mais de US$ 50 mil. ‘‘Isso porque eu não pagava aluguel, energia, água e tinha um vida bastante regrada. Se vivesse como os italianos não sobraria nada. Essas economias permitiram que eu comprasse uma casa, um caminhão pequeno e montasse um oficina de motos’’. Mesmo elogiando a experiência que teve, João Carlos diz que o brasileiro que nunca morou fora acha tudo belo e maravilhoso.
‘‘Viajar como turista é uma coisa; viver e trabalhar fora é outra realidade. Quem vai como imigrante não pode ficar horas contemplando a cara de uma estátua’’, compara.


‘‘Sou descendente de italianos e estou procurando informações sobre meus ascendentes na Itália. Meus bisavós chegaram ao Brasil em 28 de agosto de 1894 a bordo do vapor francês Charles Martel, desembarcando no porto do Rio de Janeiro. Não sei qual era a cidade de suas origens na Itália, porém me parece que são da região do Veneto. Eles possuíam um contrato de trabalho datado de 2 de agosto de 1892. A família era composta por Luciano Marchiori (meu bisavô), Maria Marchiori (bisavó), Luigi Marchiori (meu tio avô) e Giussepe meu avô. Gostaria muito de entrar em contato com outros Marchiori no Brasil ou na Itália’’.
Cláudio Marchiori, Seropédica (RJ)


‘‘Gostaria de receber notícias sobre a família Massotti, de Gramado (RS), pois a história que meu bisavô contava era de que, quando desembarcou no porto de Santos (SP), perdeu-se de seu irmão, que mais tarde saberia, foi para o Sul do País. Lá constituiu família e nunca mais se comunicaram ou tiveram notícias um do outro. O nome do meu bisavô era Epaminondas Massoti, que trouxe seus dois filhos: João, meu avô paterno e Emílio, meu tio avô. Gostaria muito de esclarecer essa história, que ouço desde pequena, e também meu pai Adolpho Massoti ficaria muito feliz com possíveis notícias sobre estes parentes ‘‘perdidos’’.
Célia Massoti Nacarato, Jundiaí (SP)Brasileiros correm atrás de documentos antigos em busca da cidadania italiana; só no consulado italiano, são 4 mil pedidos por ano
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