''A minha história de vida em Londrina está intimamente ligada à essa chácara'', desabafa o médico Caio de Moura Rangel, 90 anos, proprietário de um terreno que teve uma parte ocupada e transformada no assentamento Monte Cristo, na zona leste da cidade. A sede da chácara, que ainda está em poder da família, foi saqueada e incendiada na semana passada. As filhas do médico, Míriam Rangel Moreira e Vera Lúcia Rangel de Oliveira, responsabilizam os moradores do assentamento pela destruição.
Rangel, pela debilidade de sua saúde, não foi informado pelas filhas da destruição da sede da chácara. Ele sabe apenas da invasão ocorrida em novembro de 1996 e que o terreno teria sido danificado. Falando com muita dificuldade, o médico se diz revoltado com a situação e com o descaso das autoridades no cumprimento da reintegração de posse concedida pela Justiça cerca de duas semanas após a invasão, há quase cinco anos. ''Espero uma remuneração digna ou a devolução do espaço que é da minha família'', declara.
As filhas contam que desde a aquisição do terreno, na década de 40, o pai sempre teve uma afeição especial pela propriedade, que frequentava diariamente. ''Lá eram feitas as festas de família, comemorávamos os nossos aniversários, ou simplesmente nos reuníamos aos domingos'', relata Vera Lúcia. Até mesmo quando recebiam hóspedes, a casa da chácara era o local preferido para acomodação.
Na chácara, Caio Rangel cuidava dos animais que recebia de presente, ou como forma de pagamento das consultas médicas que realizava. Ele foi o sétimo médico a chegar a Londrina, em 1936. Na propriedade ocorriam também as festas de confraternização dos funcionários da Santa Casa, onde o médico trabalhava. ''As irmãs do Mãe de Deus (colégio) adoravam levar as alunas para piqueniques'', relembra a filha Míriam.
Do local restam apenas as muitas fotos tiradas em família, que enfeitam a estante da sala da casa onde o médico vive. Entre as filhas, além das recordações, há um descontentamento com o poder público, mas também a esperança de uma negociação. Elas pretendem encaminhar uma cópia do mandado de reintegração de posse ao novo comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Rubens Guimarães de Souza, na esperança de que dessa vez sejam atendidas.

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