Laranjeiras do Sul - Aos poucos, o tempo e os vândalos estão destruindo uma das últimas construções financiadas com o dinheiro público da época em que o Paraná perdeu 25% do seu território e que a cidade de Laranjeiras do Sul (Sudoeste), hoje com 31.641 habitantes, foi a capital do ''Iguassú'', um dos territórios federais decretados por Getúlio Vargas em 1943.
O imóvel em questão é uma ampla casa, toda de madeira, com 13 peças, construída com requintes de luxo, contando com lareira e sistema de calefação para os dias frios, para abrigar o vice-governador do território. Mais tarde serviu como sede dos Correios.
Fica na Área Central. Bem ao lado, está o antigo palácio do governo, uma obra imponente, toda de cerne de pinheiro, com 450 metros quadrados, levantada em um ano por funcionários federais, e que escapou do vandalismo por atualmente abrigar a Câmara de Vereadores, a Secretaria de Obras e a Junta Militar. Porém, mesmo em condições melhores, o palácio também precisa de uma restauração para continuar em pé, testemunhando uma parte importante da história do Estado.
Foi por meio de um decreto-lei, o 5.812, que Getúlio Vargas, dentro de sua ideologia de promover uma ''marcha para o Oeste'', procurando levar brasileiros para longe da faixa litorânea do país e ocupar um espaço ameaçado pelos vizinhos de colonização espanhola, criou cinco territórios federais: Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta Porã e Iguassú. Esse último tomava de Santa Catarina e Paraná 65.854 km quadrados - a maior parte, 51.452 km quadrados, no Paraná, abrangendo toda a Costa Oeste e chegando a parte do atual Norte Novíssimo. Uma imensidão de terras, mas com apenas quatro municípios constituídos.
O decreto-lei não determinava capital para os territórios. Isso só aconteceu em um decreto seguinte, em maio de 1944, que criou confusão ao expressar que a capital do Iguassú seria ''a cidade de mesmo nome''. Acontece que não existia nenhuma cidade chamada Iguassú no Paraná ou em Santa Catarina. Não demorou para os moradores de Foz do Iguaçu, à época um município com 7.653 km quadrados de área e 30 mil habitantes, imaginarem que a capital seria ali, uma antiga colônia militar na fronteira com o Paraguai.
Contudo, o governador designado para dirigir o território, o coronel João Garcez do Nascimento, havia indicado uma outra área para o governo, o Distrito de Vila Xagu, outrora chamado Laranjeiras, para abrigar a capital. ''Há quem diga que ele fez isso para não ir para Foz, que era distante de tudo, mas não há qualquer documento que comprove tal fato. Há apenas o registro de uma conversa de Garcez do Nascimento com o então interventor do Paraná na qual ele teria dito que queria ficar mais perto da civilização'', relata o professor Arno Bento Mussoi, que leciona no Ensino Médio de Laranjeiras e pesquisa a história do antigo território federal.
Dessa forma, mais três mil quilômetros quadrados foram anexados à área do Iguassú para englobar Vila Xagu. Conforme narra o professor Mussoi, na época, o local não passava de um posto de manutenção da linha de telégrafo que ia até Foz. Tudo era sertão. No meio do mato foi montada a estrutura de uma capital, planejada e com avenidas largas, de 30 metros.
Homens de todos os cantos chegaram para trabalhar no serviço público do lugar. ''Meu pai, por exemplo, era um agricultor gaúcho e veio para trabalhar no departamento de fomento à agricultura do território'', comenta Mussoi.
Em fevereiro de 1946, já com Vargas deposto e Eurico Gaspar Dutra na presidência do país, Iguassú passou a ter um novo governador, o major Frederico Trotta. As obras de infraestrutura da capital seguiam. Até uma réplica do Cristo Redendor do Rio de Janeiro chegou por ali em lombos de burro. Hoje, o monumento é um dos símbolos de Laranjeiras do Sul, exposto sobre uma estrutura imponente de concreto, no alto de um morro, desde 1982.
Foi no mesmo ano de 1946, em setembro, que o território do Iguassú foi extinto. Isso aconteceu na Assembleia Constituinte, quando as forças políticas do Paraná, lideradas por Bento Munhoz da Rocha Netto, conseguiram que o Paraná recuperasse as terras. Também extinguiu-se Ponta Porã. Os outros territórios federais acabaram virando estados mais tarde.
Em 1947, a ex-capital passou a se chamar Laranjeiras do Sul. Imóveis importantes do antigo território, como a casa do governador, foram desaparecendo, sendo substituídos pela alvenaria. Sobraram os dois que clamam por maior atenção do poder público.

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