DESCASO - Liberdade vira morte para adolescente viciado
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sábado, 24 de fevereiro de 2007
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Assim que o carro do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) parou em frente de casa trazendo o filho de 16 de anos, a empregada doméstica Maria (nome fictício), 45 anos, sabia que a liberdade dele era uma sentença de morte. Horas mais tarde, na noite do dia 21 de novembro do ano passado, a tragédia se confirmou: Ricardo, 17 anos, foi baleado e morto próximo a um ponto de tráfico na avenida Saul Elkind, nos Cinco Conjuntos (Zona Norte de Londrina).
Com os olhos transbordando de saudades três meses após o crime, ela contou à FOLHA que o próprio filho sabia o que poderia encontrar na próxima esquina mas não tinha mais forças para lutar contra o vício. ''Quando ele desceu do carro, pediu para eu assinar logo os papéis. Ele disse para mim que queria morrer no Cincão.''
Para a mãe, sobraram apenas a dor da perda e o sentimento de culpa. ''A gente que é mãe parece que só enxerga essas coisas quando já é tarde'', desabafou. Depois da descoberta, dona Maria perambulou com o menino por inúmeras clínicas terapêuticas, deu força para ele seguir internado mas o poder de arrebatamento do vício se mostrava sempre maior que todo o amor de mãe.
''Se tivesse um tratamento onde ele ficasse fechado, penso comigo que o Ricardo estaria vivo aqui agora comigo'', lamentou. ''Quem sofria com os desacatos, com as agressões, com palavras... Era eu. A Justiça parece que não via isso. Aí está o resultado: perdi meu filho por causa da droga. Por isso eu peço que mudem essa lei e que protejam essas crianças.''
Hoje dona Maria vive na sombra, sob ameaça. Tenta achar conforto nas lembranças, como a que aparece na foto do filho vestido de caipira numa festa da escola: ''Quando vejo essa foto dele com seis anos, não aguento. Ver meu menininho lindo, sorrindo, feliz... Dói mais ainda saber que até agora quem matou ele nem preso foi.''
Para não deixar que a mesma história se repita com o outro filho adolescente, que também está ameaçado de morte, a família quer se mudar de Londrina. Mas até agora não conseguiu juntar o dinheiro para pagar a mudança.
A promotora da Vara da Infância e Juventude, Édina Maria de Paula, confirmou que, infelizmente, histórias como a dessa mãe são frequentes e, quase sempre, ela fica de mãos atadas. ''Hoje não há tratamento adequado nem para o adolescente dependente que está solto nem para aquele que está apreendido'', criticou. Para a promotora, a questão é de sa© úde pública. ''O Estado deveria disponibilizar espaços específicos para tratar estes adolescentes, mas o problema é que também os profissionais de sa© úde não têm conhecimento técnico para atender essa demanda'', opinou.
Segundo a promotora, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define que é dever do Estado zelar pelo bem estar físico e mental do adolescente internado, ''mas não há instituições na região que aceitem receber aqueles que são dependentes crônicos e com problemas mentais''. Édina alertou que a falta de tratamento adequado tem provocado um aumento no número de tentativas de suicídio em unidades de internação. Por isso tudo, ela se uniu com outras promotoras da região para fazer um diagnóstico da situação e tomar, em conjunto, as medidas necessárias contra o Estado.
PEDIDO DE AJUDA - Quem quiser ajudar dona Maria pode entrar em contato com a FOLHA, através do telefone (OXX43) 3374-2175.


