Nem tudo o que cai na rede é peixe. Isso se aplica também à internet, quando o assunto é informação correta. Os internautas que se preocupam com essa recomendação e que, nos últimos dias, receberam um e-mail sugerindo que não descartem óleo de cozinha na pia, guardando o produto em garrafa pet para juntar ao lixo orgânico querem saber: óleo de cozinha é uma fonte de poluição hídrica?
Há divergência entre ambientalistas, pesquisadores e as empresas de tratamento de esgoto, que apontam que os resíduos encarecem em até 45% o serviço.
O gerente metropolitano da Sanepar, Sérgio Bahls, afirma não ter dúvida de que o óleo de cozinha na rede de esgoto reduz a capacidade das estações de tratamento em até 20%. ''As nossas estações foram projetadas para atender a demanda da região por 20 anos. Porém, o descarte incorreto do óleo de cozinha diminui essa capacidade'', aponta Bahls.
Em Londrina, a Sanepar possui duas estações de tratamento de maior porte localizadas nas zonas Norte e Sul e outras duas de menor capacidade nos conjuntos habitacionais São Lourenço e Cafezal, ambos na Região Sul. Além disso, a empresa mantém em funcionamento outras três estações em Cambé (13 km a oeste de Londrina).
O gerente metropolitano da Sanepar ressalta que o excesso de óleo na rede de esgoto é altamente prejudicial, provocando problemas físicos e biológicos nas estações de tratamento. ''O excesso provoca a obstrução na estação, que trabalha com colônias de bactérias. A gordura dificulta a digestão do lodo e também forma uma camada espessa de nata, que é diferente da espuma de detergente'', explica Bahls.
Pondo um pouco mais de óleo quente no assunto, o professor do Departamento de Química da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Olivio Fernandes Galão, mestre pela instituição, afirma não acreditar que o produto seja um dos vilões da rede de esgoto.
''Honestamente, eu não acredito. Não é procedente porque o óleo é facilmente biodegradável. Quando chega na estação mais de 50% já estão degradados. É um organismo natural e na rede de esgoto há bactérias que o degradam com facilidade'', destaca Galão. O professor também não vê a necessidade de guardar o óleo em garrafa pet, como sugere o e-mail, que anda caindo na caixa postal de muitos internautas.
Na outra ponta da discussão alguns ambientalistas garantem que o óleo que vai parar nos rios impermeabiliza os leitos e terrenos adjacentes, o que contribui para enchentes.
O assessor do Núcleo de Recursos Hídricos da Secretaria de Meio Ambiente, João Batista Moreira Souza, conhecido também pelo trabalho como ambientalista, ressalta que o óleo de cozinha é biodegradável, porém, afirma que o produto ao se misturar com outros resíduos na rede de esgoto pode causar entupimento.
''Isso pode transbordar e poluir rios com outros dejetos. O grande problema é que o óleo de cozinha na água pode ser confundido com óleo combustível, que causa danos ambientais'', acrescenta Souza.
Para quem recebeu o tal e-mail e ficou com a pulga atrás da orelha, sem saber qual destinação dar ao óleo, soluções não faltam.
Um posto de gasolina de Berkeley, nos Estados Unidos, conseguiu atrair mais clientes ao oferecer combustível 100% natural obtido a partir do produto.
O professor Galão comenta que essa seria uma alternativa para o descarte do óleo de cozinha, que passaria por algumas modificações químicas antes de ser aproveitado como biodiesel. ''Algumas pesquisas e trabalhos já foram publicados sobre o biodiesel de óleo de cozinha na Unicamp e USP'', destaca Galão.
Não são apenas as donas de casa que se preocupam com o descarte do óleo de cozinha, os restaurantes também procuram dar uma destinação ao produto. Um dos proprietários de uma rede de cinco restaurantes e uma lanchonete, Ênio Sehn, afirma que cada gerência das unidades adota uma medida diferente.
Um dos restaurantes optou por doar o óleo usado para uma ex-funcionária. Outro repassa para a Associação Maria de Lourdes Brossero Dominique, que desenvolve um projeto social de fabricação de sabão caseiro.
A produção de sabão também é a solução adotada por algumas barracas de pastel nas feira-livres. O feirante Rubens Suziki, 70 anos, diz que em sua barraca são consumidos 30 litros de óleo por semana na fritura de pastel e que utiliza o resíduo para fabricar sabão e detergente.
Longe do olho do furacão dessa discussão, ninguém melhor do que a dona de casa para dar um pitaco no assunto. A zeladora Cecília Aparecida Mesquita, 35 anos, costuma jogar o resíduo na fossa.
Ao acompanhar a conversa da zeladora com a reportagem, a aposentada Aparecida Mesquita, 62 anos, não se conteve, recomendando a fabricação de sabão com o óleo queimado. ''Não joga na fossa não. Faz sabão, que é muito bom para lavar panelas''.

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