Pindamonhangaba - O consumo per capita de latas de alumínio no Brasil é de 115 unidades por ano. Quem bebe uma cerveja ou um refrigerante, no entanto, muitas vezes não sabe a origem das embalagens desses produtos e tampouco se dá conta do que acontece com elas depois de descartá-las. A principal vantagem do alumínio é a possibilidade de ser reciclado infinitas vezes. Porém, um dos problemas enfrentados durante esse processo de reciclagem pode comprometer o trabalho de muitas pessoas e de muitas horas dispendidas durante o processo de coleta, separação e revenda do material. Latas usadas como lixeiras, onde são colocadas bitucas de cigarro, por exemplo, prejudicam todo o ciclo da reciclagem.
A catadora de materiais recicláveis Eliza Le Senechal, de 62 anos, trabalha diariamente em uma cooperativa em Pindamonhangaba (SP). Das 7h às 17h, ela percorre as ruas da cidade em busca de toda sorte de produtos que podem ser reciclados, batendo de porta em porta para recolher o material. O transporte é feito em carrinhos simples, de tração humana, para o barracão da cooperativa. O material é separado em mesas. Tudo isso para ganhar um salário de cerca de R$ 500 ao mês. Depois de prensar as latas de alumínio para ocupar menos espaço durante o transporte, o material é encaminhado para a recicladora Latasa, que utiliza uma ferramenta hidráulica para abrir o material prensado e analisar se há objetos estranhos nas latas.
Segundo Sílvio Leite, supervisor do centro de coleta da Latasa, a contaminação do produto por outros materiais pode inviabilizar a reutilização de um lote inteiro. "Durante a segregação do material, esses recipientes com objetos dentro às vezes são misturados sem querer às demais latas, mas quando a empresa detecta o material contaminante, descarta o lote inteiro", ressalta. Quando isso acontece não é apenas o valor do alumínio prensado que deixa de ser pago. Muitas pessoas como a Eliza gastaram muito tempo coletando, separando, prensando o material também perdem. As empresas que compraram o produto também gastaram tempo e dinheiro com o pagamento de seus funcionários e de sua estrutura para receber as latas prensadas. Esse descarte precisa ser feito antes do material ir para os fornos de fundição devido ao alto custo de manutenção e de operação deles.
Segundo Gilson Bento da Silva, diretor de suprimentos e material da Latasa, quando o material é derretido, o que não é alumínio forma uma escória e uma borra, cujos valores comerciais são muito menores que os do alumínio. E o peso do material que foi incinerado durante o processo e não foi transformado em alumínio faz com que haja uma perda de produtividade. "A gente perde metal na saída do forno e com a contaminação precisamos usar alumínio primário, feito a partir da bauxita, para corrigir o problema", destaca.
Um estudo do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) aponta que a reciclagem de uma lata de alumínio para a obtenção de uma nova embalagem reduz em 70% as emissões de CO² e em 71% o consumo de energia elétrica quando comparado à lata fabricada apenas com alumínio primário e a adição de alumínio primário para corrigir a liga devido às impurezas faz com que haja uma diminuição dessa vantagem.
Essa perda na saída dos fornos acontece inclusive com os restos de líquido que são deixados na lata quando não se consome todo o produto. Mesmo depois de prensadas, algumas latas ainda acumulam parte desse líquido. Ao serem levadas aos fornos, os restos de líquido sofrem um processo de evaporação. "Nós trabalhamos com um nível máximo de até 2,5% de umidade", aponta Silva.
Depois de fundidos, o alumínio é despejado em cadinhos para transporte em sua forma líquida ou em formas quando a intenção é a produção de lingotes. Em empresas como a Novelis é feito o processamento para que o alumínio fundido ou as placas de alumínio sejam transformados em bobinas de chapas de alumínio. O processo de laminação de uma placa de 600 milímetros para a espessura de uma folha utilizada nas latas é, grosso modo, similar ao processo de fabricação da massa do macarrão, em que são utilizados cilindros para afinar a massa de alumínio aquecida.
Na sequência o material é enviado para uma indústria que modela o alumínio com o formato que os consumidores estão acostumados a ver nas prateleiras. Na Rexam, por dia, são utilizadas 4 bobinas de alumínio com 11 toneladas cada para produzir 4 milhões de latas, que podem receber até 8 cores diferentes e aplicações de tinta ultravioleta, tinta fosca ou com verniz com textura e recebem também um tratamento interno para evitar o contato do líquido direto com a lata. Depois de colocadas em paletes, as latas passam por um processo de enchimento nas indústrias de bebidas e são novamente distribuídas aos pontos de venda. E depois de consumida a bebida, as latas são descartadas e o processo de reciclagem começa novamente.

O repórter viajou a convite da Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e Associação Brasileira de Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas)

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