Israel Reinstein
De Curitiba
O desastre de Chernobyl, ocorrido em 25 de abril de 1986, produziu muito dor entre os ucranianos, mas, talvez pelas consequências graves, também gerou uma grande solidariedade de pessoas que desconheciam aquela região do Leste Europeu. Milhares de famílias foram atingidas pela radiação, que vazou do reator 4, incendiado por um problema de segurança. Hoje, a nova geração ainda convive com os males causados pelo acidente atômico.
‘‘Fiquei fraco com uma doença que me deixou sem força para andar’’, resume Serguei Romanets, 7 anos, que está há duas semanas em Curitiba. O menino faz parte de um grupo de cinco crianças, que vem sendo tratado por médicos do Hospital Evangélico e fica no Brasil até dezembro.
Com leucemia, a criança, que é muito extrovertida, conta que sua mãe o ensinou a conviver com a doença, informando que ela ataca o sangue, por isso o deixa fraco. Apesar das explicações, ele ainda tem dúvidas se a leucemia não afeta também as suas pernas, já que por cinco meses ele era carregado pela mãe, por não conseguir se sustentar.
A doença não afeta somente o físico das crianças. O menino Oleg Dsubulsky, que completa 10 anos no dia 12 de dezembro, é uma pessoa isolada, que se comunica pouco. ‘‘Talvez seja por causa de tudo que ele passou’’, avalia a Joana Snak, mãe adotiva do menino. O garoto foi obrigado a viver por quase um ano em um hospital, por não se sentir bem.
Hoje, aluno do equivalente a terceira série, o menino é limitado pela debilidade física. ‘‘Ele não pode pegar muito vento ou variações climáticas’’, conta Maquiano Snak, marido de Joana. Nos períodos mais críticos da doença, o menino precisa ficar na casa de sua avó, esperando um professor que vem dar-lhe aula. ‘‘Ele é muito inteligente, mas não se relaciona nem mesmo com os amigos que vieram da Ucrânia’’, diz Joana.
Mais extrovertido e também inteligente, Yaroslev Opanassenko, 8 anos, prefere contar um pouco de si, a falar sobre a doença. O menino interessa-se por tudo que é novidade, como o computador. Durante essas duas semanas de adaptação, o menino mostrou à mãe adotiva, Maria Luíza D’Agostin Horbatiuk, suas outras habilidades.
‘‘Não sei falar ucraniano, mas como ele sabe um pouco de inglês, estamos conversando também com mímicas’’, diz. Aluno da segunda série, ele gosta de solucionar problemas complexos no computador. ‘‘Mas ele também não deixa de brincar’’, afirma Maria Luíza.
Já a diversão de Daria Metushevka, 9 anos, são os brinquedos. ‘‘Ela avisou que quer ganhá-los, ao invés de receber roupas’’, diz, afirmando que prefere os ursinhos. A menina diz que o que ganhou de roupas vai usar na Ucrânia, para mantê-las como novas. Daria, que é chamada carinhosamente de Dasha, não fala sobre sua família. O seu pai adotivo, José Welgacz Junior, conta que a menina tem muita saudade da família que deixou na Ucrânia. Todo domingo, ela fala com os pais. ‘‘Durante a noite, ela coloca no peito um pequeno álbum de fotografia, com as fotos do pai e mãe, que ficam ao lado de um crucifixo’’, conta Welgacz. O pai, que é também presidente da Representação Central Ucraniano Brasileira, entidade responsável pela vinda das crianças, diz que Dasha, apesar da saudade, se relaciona com todas as pessoas que falam ucraniano e a tratam bem.
Welgacz conta que a representação deverá trazer mais crianças ao País. ‘‘Estamos trazendo crianças que tenham pais vivos na Ucrânia porque, assim, é mais fácil a separação deles das famílias curitibanas’’, justifica. Ele conta que essa posição foi tomada depois da vinda dos primeiros meninos e meninas. Alguns dos pais adotivos queriam manter as crianças no Brasil.O acidente atômico casou muita dor entre os ucranianos, mas despertou a atenção de pessoas que desconheciam a região
Kraw PenasCURTA TEMPORADAAs cinco crianças que estão em Curitiba para tratamento médico se divertem na cidade, onde ficam até dezembro

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