Há quatro anos, as chuvas provocaram enchentes históricas no Lago Igapó e nos diversos córregos e ribeirões que cruzam Londrina, provocando um cenário de muita destruição. As cheias ocorreram por conta do fenômeno "La Niña". O universitário Luiz Henrique Caetano Borges, de 27 anos, morreu após ser arrastado pela água quando atravessava uma ponte sobre o Ribeirão Quati, na Vila Portuguesa (área central de Londrina).
Entre 9 e 16 de outubro de 2011, o volume de chuvas em Londrina foi de 195,3 milímetros, ultrapassando a média histórica do mês, que é de 140 milímetros, segundo dados do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Naquele mês foram registrados 278,3 milímetros de precipitação. Para se ter uma ideia, em setembro do mesmo ano choveu apenas sete milímetros.
Depois de quatro anos, ainda há marcas daquele episódio pela cidade. No Parque Arthur Thomas, na zona sul, o segundo mirante da cachoeira do Caracol, no Ribeirão Cambé, ainda está interditado e um muro de arrimo próximo à antiga usina hidrelétrica continua sem conserto. No Lago Igapó 4, uma das pontes atingidas pela força das águas está abandonada no gramado, sem previsão de reparo.
Na época, o então prefeito Barbosa Neto chegou a anunciar o investimento de R$ 800 mil para recuperação dos estragos, mas as adequações foram insuficientes para conter outra chuva forte que caiu em junho de 2012. Também foram anunciados investimentos de R$ 40 milhões com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que nunca chegaram ao município.
A administração atual fez consertos e adequações mais urgentes. A solução definitiva, no entanto, depende de mais obras, da recomposição das matas ciliares ao longo dos fundos de vale e de mudança de cultura dos moradores, para evitar o descarte inadequado de lixo, por exemplo.
O assoreamento do Igapó é tão grave que o espelho d’água tem apenas poucos centímetros de profundidade. De acordo com o professor de hidráulica da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e do Centro Universitário Filadélfia (UniFil), Caio Victor Lourenço Rodrigues, a enchente de outubro de 2011 foi "emblemática e decorrente de uma somatória de fatores". "A chuva teve intensidade e volume muito grandes em um período muito curto e isso não é comum historicamente. Além disso, houve o crescimento da cidade e tem a ver como está sendo feita a ocupação do município", aponta.
Segundo Gustavo Góes, do Conselho Municipal de Meio Ambiente, um dos problemas é que, ao obter o habite-se, pessoas acabam impermeabilizando toda a área, perdendo os 20% de área permeável que precisam manter. "Essa é a importância da prefeitura fiscalizar cada lote", afirma. Rodrigues destaca que a impermeabilização cada vez maior direciona a água da chuva de maneira rápida para os corpos hídricos da cidade. "O problema é que os corpos receptores não estão absorvendo o volume", explica. Segundo ele, isso acontece em função do assoreamento. "A capacidade que os corpos hídricos têm para receber está cada vez mais reduzida. No caso do Igapó, vários córregos estão interligados por ele, então o que acontece nele reflete nos outros córregos também." A falta de mata ciliar também contribui para que o assoreamento seja evidenciado. "A faixa de mata deveria existir sempre, pois serve como um freio para que o volume de água não chegue tão rapidamente ao corpo hídrico. Além de frear, os sedimentos ficam retidos na vegetação e não chegam ao córrego. Não vislumbro nenhuma situação em que esses fundos de vale deixem de existir. Eles são extremamente importantes", afirma. Um projeto de lei que transforma os fundos de vale em praças tramita na Câmara Municipal.
Para Rodrigues, a responsabilidade pelo combate ao assoreamento deve ser compartilhada entre o poder público e a população. "Todo mundo contribui um pouco para o assoreamento do lago. A pessoa que coloca a areia na calçada, na primeira chuva esse material é carregado para as galerias pluviais", alerta. O mesmo acontece com a movimentação de terra e sedimentos durante uma obra. Gustavo Góes aponta as obras da PR-445 como um mau exemplo que resultou no carreamento de sedimentos para os corpos hídricos. "As obras da cidade acabam não tendo medidas para conter os sedimentos", conclui.

mockup