A falta de perspectiva de transferência para local adequado, mesmo que provisório, está causando desânimo e dificultando a sobrevivência de 97 famílias de lavradores sem terra, acampados à margem da BR-277, perto da cidade de Ibema (50 quilômetros ao sul de Cascavel).
O grupo representa quase 10% do total de acampados no Estado - cerca de mil famílias, segundo estimativa de Roberto Baggio, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais dos Sem Terra (MST).
As 97 famílias estão a 5 quilômetros da cidade, ocupando a faixa de domínio da rodovia federal, em um trecho com curvas acentuadas nas duas extremidades. O tráfego pesado representa risco, principalmente para crianças que atravessam de uma margem à outra, mas a forte vigilância de pais e coordenadores têm evitado acidentes.
O acampamento foi formado há mais de um ano e já chegou a reunir mais de 500 famílias. A maior parte foi transferida pelo Incra para locais provisórios ou desistiu de permanecer na lona preta, por causa da longa espera.
Para as que restaram, o Incra não deu qualquer perspectiva de assentamento. Funcionários do órgão pediram para esperar, conforme reclama um dos coordenadores do acampamento, Natalino Oliveira Ramos, 36 anos, 6 filhos, que veio do município de Catanduvas.
‘‘O povo aqui está abatido com o sofrimento do barraco’’, diz Natalino. As permanentes chuvas e o intenso frio das últimas semanas aumentaram as dificuldades, afetando principalmente idosos e crianças, mais suscetíveis à problemas respiratórios.
Maria Aparecida Amorim, 41 anos, que atua como agente de Saúde no acampamento, afirma que a prefeitura de Ibema recusa-se a oferecer qualquer tipo de apoio, porque o prefeito não considera o grupo como sendo do município.
O prefeito Adelar Arrosi (PDT) admite que não considera os sem-terra da BR-277 como munícipes. Ele alega haver dificuldades para atender a própria população da cidade nas áreas assistencial e de saúde. Arrosi afirma ainda que em Ibema ‘‘não há terra a ser invadida’’, por isso as famílias deveriam desmontar o acampamento.
Além dos problemas gerais, que atingem todas as 97 famílias, o grupo está divididos em duas alas: a de ‘‘Catanduvas’’ e a de ‘‘Lindoeste’’, municípios vizinhos e de origem da maioria.
O primeiro grupo reclama que donativos vindos de Lindoeste são entregues diretamente para as famílias provenientes deste município e não são repartidos com as demais. Segundo o coordenador Natalino Oliveira Ramos, que é de Catanduvas, a prefeitura do município de onde ele veio estaria atendendo indistintamente as famílias seus postos de Saúde. ‘‘Isso quando a gente consegue ir lᒒ, acrescenta.
De acordo com a coordenação estadual do MST, em todo o Paraná há cerca de mil famílias em acampamentos à beira de estradas, em situação idêntica as de Ibema. No Oeste, há ainda 300 famílias à margem da BR-277, em São Miguel do Iguaçu. Na região Centro-Sul está o maior acampamento, em Rio Bonito do Iguaçu, na BR-158, com 600 famílias.

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