Karla Marinho, vítima de paralisia cerebral, estava fadada a passar a vida numa cama quando nasceu. Contrariando o diagnóstico médico, hoje, 19 anos depois, ela se senta diariamente em uma carteira da Escola Estadual Nossa Senhora de Lourdes, na Zona Leste de Londrina, onde está terminando o Ensino Médio. ''Quero fazer faculdade de pedagogia e ser professora'', revela com dificuldade na fala, mas muita convicção.
A jovem é um exemplo de que os obstáculos para a inclusão de pessoas com deficiência no ensino regular podem estar muito mais na sociedade do que nas limitações físicas e mentais dos alunos. O Brasil passou a enxergar melhor essa realidade nos últimos anos e abriu as portas da educação especial, saltando de 43.923 alunos matriculados em 1998 para 262.243 no ano passado, conforme o Censo Escolar 2005. Mas ainda é muito pouco. Não é à toa que Karla abriu esta reportagem: casos como o dela surpreendem porque continuam sendo exceções, e não regra.
Em Londrina, faltam dados para traçar um panorama da inclusão social nas escolas. O Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CMDPD) recebeu recentemente os números das escolas mantidas pela prefeitura, mas ainda aguarda o levantamento do Estado. ''Tivemos que oficiar o Núcleo Regional de Educação (NRE) para que nos envie as informações que foram solicitadas ainda no final do ano passado. Precisamos de dados para nortear medidas de inclusão'', cobra a presidente do conselho, Martinha Claret Dutra. O NRE informa que está terminando de tabular os dados.
Na rede municipal, de acordo com o conselho, 313 crianças e adolescentes com deficiência estão matriculados em classes comuns de educação infantil à 4 série. Outros 149 estudam em classes especiais de 1 a 4 séries, dentro de escolas comuns. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), há 93 alunos.
Como até hoje o CMDPD desconhece a soma de deficientes que vivem em Londrina, as referências são dados nacionais. Segundo o Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 14,5% da população têm algum tipo de deficiência. Num universo de 447 mil habitantes (conforme o mesmo censo), isso implicaria quase 65 mil londrinenses com necessidades especiais. ''Sabemos que das 700 pessoas com deficiência cadastradas na CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), menos da metade tem educação básica completa. Juntando a isso os dados da inclusão no município, percebemos que o índice de atendimento escolar é baixíssimo'', atesta Martinha, para quem os números do NRE não devem alterar essa constatação.
A situação atual está a um abismo de distância do ideal defendido pela presidente do conselho - e respaldado por uma corrente nacional de profissionais da educação - de que todos os deficientes podem e devem ter acesso ao ensino regular. ''As escolas especiais não substituem as escolas comuns, não certificam. Se a pessoa com deficiência frequenta somente essas escolas é considerada legalmente fora do ensino, e os pais podem ser responsabilizados por abandono intelectual'', alerta.
Martinha frisa que não é favorável à extinção das escolas especiais, as quais, segundo ela, podem oferecer um importante suporte para o desenvolvimento dos alunos com deficiência no contraturno dos colégios comuns. O problema é que, hoje, grande parte frequenta somente as escolas especializadas - principalmente na área de deficiência mental.
Na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Londrina, uma das entidades mais tradicionais do País, dos 294 alunos matriculados no ano passado, não chegou a 20 o número de encaminhamentos para escolas comuns. A diretora da Apae, Maria Helena Santos Faleiros, garante que ''todo o ensino na instituição é observado com vistas à inclusão'', mas que não pode forçar uma mudança prejudicial ao aluno.
''A gente que vivencia o trabalho com esse público se pergunta: até que ponto é justo incluir uma criança que não tem condições de acompanhar o ensino comum? Há alunos, por exemplo, que não têm memória para aprendizagem ou que são muito dependentes'', cita. A diretora acredita que mais alunos poderiam ser inseridos nas escolas comuns se estas ''tivessem um currículo adaptado para eles'' e admite que o fato de as escolas especiais não fornecerem diploma dificulta o acesso ao mercado de trabalho. ''As empresas procuram por quem já tem pelo menos o Ensino Fundamental.''

mockup