Londrina
A depressão e o comportamento suicida na infância e na adolescência foram os temas do Serão de Pediatria, evento que acontece todo mês no anfiteatro do Hospital Universitário (HU), da Universidade Estadual de Londrina, discutindo assuntos ligados às ciências médicas.
Na última sexta-feira, às 20 horas, o convidado foi o psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, professor do Departamento de Psiquiatria Infantil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente do Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo na Infância (Gepapi). Ele foi o primeiro pesquisador da América Latina que, ainda em 1975, publicou trabalho específico sobre depressão em crianças e adolescentes.
O estudo da depressão em crianças não é novo - há livros sobre o tema publicados ainda no século passado - mas apenas nas últimas décadas a preocupação com a doença gerou maior qualidade de análise e eficiência no tratamento. ‘‘A criança sempre foi considerada imune à depressão. Muito recentemente descobriu-se que ela era um ser em desenvolvimento, tanto na área física quanto emocional’’, aponta Lippi. Para o professor, o fator hereditário é muito importante para definir o perfil da criança que pode ou não desenvolver a depressão. Mas não é só: a influência do meio (família, escola, amigos) determina se a doença vai mesmo se manifestar, completando o canal entre os fatores biológicos, sociológicos e psicológicos.
O avanço da depressão, observada nos últimos anos em todo o mundo, está intimamente ligado ao desenvolvimento industrial e tecnológico. Essa evolução impôs um nível de competição muito alto na sociedade moderna, mesmo entre as crianças, aumentando o nível de stress. Muitas escolas, por exemplo, por insuficiência de vagas, promovem vestibulares para ‘‘filtrar’’ os melhores alunos. José Raimundo Lippi aponta que mesmo crianças de colo podem desenvolver a depressão. Os indícios podem ser observados no berço: ela fica deitada de barriga para baixo, com olhar perdido por muito tempo, não reagindo à presença de outras pessoas. ‘‘Encontramos esse comportamento na Febem. Você passava em frente da criança e é como ela não visse’’, aponta. ‘‘Se ela sobrevive, essas marcas podem permanecer.’’
O professor destaca, no entanto, que os sintomas de depressão não são encontrados apenas nas crianças abandonadas, na última camada da pirâmide social. Não é raro, ele diz, o filho de uma família muito rica passar o dia inteiro ‘‘das mãos de empregada para as mãos de babá e para as mãos de enfermeira’’. A criança não desenvolve, assim, vínculo com qualquer uma dessas pessoas, nem com os pais, e por isso se sente abandonada.
Saindo da fase do colo para a infância e adolescência, os sintomas observados em crianças depressivas também mudam e podem variam de caso para caso. Geralmente, as alterações de sono e apetite, as dificuldades na escola, a falta de concentração e o choro gratuito são características mais comuns. Se não receber tratamento de forma adequada, a doença se agrava e a pessoa pode começar a ter ideais mórbidos, como por exemplo não querer mais comer, dormir, e, finalmente, pensar em cometer o suicídio.
Quanto mais desenvolvida a sociedade, maior o número de suicídios entre adolescentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), estimava-se já há 20 anos que o suicídio provocava aproximadamente 5 mil mortes em adolescentes por ano. E a cada morte, ocorreriam entre 50 e 150 tentativas. Na mesma época, no Japão, para cada 100 mil habitantes na idade de 15 a 24 anos, ocorriam 16,5 suicídios.
José Raimundo Lippi falaria em Londrina, principalmente, para médicos pediatras. Ele acredita que esse profissional (ao lado dos professores, no caso de adolescentes) é o primeiro que pode identificar a doença e encaminhar a criança para tratamento adequado. Mas poucos - ele observa - hoje estão preparados para estudar os fenômenos não biológicos. Por isso não é raro, quando uma mãe leva o filho ao médico, que sejam tratados os problemas decorrentes da doença e não as causas da doença. ‘‘A ciência médica negligenciou muito nessa parte’’, aponta, lembrando que hoje já existem testes e escalas de avaliação da doença, com exames que completam o diagnóstico clínico.
O tratamento para os casos de depressão é feito por uma associação entre remédios e terapias psicoterapêuticas. Hoje em dia, segundo o professor, já existem medicamentos antidepressivos usados com ótimos resultados em crianças. ‘‘Há casos em que a terapia só não resolve.’’ Quanto maiores os elementos hereditários, maior o comprometimento com os remédios. Já nos casos onde o grande problema está no meio, a intervenção psicoterapêutica (na criança, na família e às vezes até na escola) é mais eficiente.
Além da depressão, José Lippi tem promovido - através do Gepapi - o desenvolvimento diversos trabalhos em torno da discussão do autismo. Dias 11, 12, 13 e 14 de dezembro, por exemplo, o grupo promove em Belo Horizonte o seminário internacional ‘‘Transtornos Autísticos no Ciclo da Vida’’. O seminário vai reunir especialistas do Brasil, Uruguai, Venezuela, Suécia, Itália, México e Estados Unidos. Maiores informações podem ser conseguidas pelo fone (031) 344.8177.

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