Um depósito de lixo está ameaçando mananciais de uma fazenda que é referência histórica da era de ouro de café no Norte do Estado e pondo em risco projetos de desenvolvimento do turismo rural na região de Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina).
A família que administra a Fazenda Paraíso (mais antiga que a própria cidade; o nome do município é alusivo à vista da propriedade), de 1,4 mil hectares, promete acionar o Ministério Público para impedir o uso de uma área destinada à construção de um aterro sanitário como lixão provisório.
De acordo com os proprietários, desde que o lixo começou a ser depositado na área do aterro, as 26 famílias que vivem na fazenda estão sofrendo, mesmo sob baixas temperaturas, com a presença constante e numerosa de moscas varejeiras. Até mesmo na sede, que fica a aproximadamente 600 metros do lixão, a reportagem da Folha percebeu nuvens do inseto. ‘‘Estamos pensando em pôr telas em todas as janelas da sede. Temos que mantê-las fechadas todo o tempo’’, reclama o fazendeiro Vicente de Almeida Neto, 72 anos, 45 de Fazenda Paraíso.
Sem seguir as mais elementares normas ambientais, caminhões de coleta da prefeitura depositam diariamente no local – próximo a uma mata nativa e a 400 metros do Rio do Cerne, que desemboca no reservatório da Hidrelétrica de Capivara – cerca de 10 toneladas de resíduos sólidos, inclusive lixo hospitalar.
‘‘Já tentamos conversar com a administração municipal sobre o problema. Eles sempre prometem acelerar a obra, mas aparentemente está tudo por fazer. Já estamos cansados de esperar’’, diz André Gomes de Almeida, 39 anos, um dos quatro filhos que trabalham com Almeida Neto, o patriarca que sonha em transformar sua propriedade em uma fazenda-parque, aproveitando construções históricas e as instalações voltadas à cultura do café, consideradas modelo e visitadas periodicamente por delegações estrangeiras que visitam o País para conhecer a cafeicultura brasileira.
‘‘Além da natural desvalorização do imóvel, nossos planos de formar uma represa para lazer estão ameaçados com a provável poluição das nossas nascentes. Estamos sendo vítimas da nossa boa vontade’’, diz Almeida Neto, referindo-se à maneira como se deu a negociação com a administração municipal.
À margem da PR-090, que dá acesso a Sertanópolis, o alqueire escolhido como local do aterro foi objeto de negociação desde 1998, quando o depósito de lixo da cidade estava com capacidade quase esgotada. Na época, como medida paliativa e provisória, foi indicada uma nova área para o lixão, que no início deste ano também já estava saturada.
‘‘A família tem um bom relacionamento com o prefeito e por isso decidimos ajudá-lo em um momento crítico, quando a cidade poderia ficar sem coleta pois não tinha um local para os resíduos serem depositados’’, conta André. Sob risco de ter a área desapropriada, o que implicaria em desvantagem econômica, a família cedeu o terreno em troca de dois lotes urbanos de 600 metros quadrados.
Segundo fontes da prefeitura, foi analisada pelo menos uma dezena de áreas. A responsabilidade da escolha foi do corpo técnico do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) que concede uma autorização prévia à Superintendência Estadual de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa), órgão responsável pela obra. ‘‘Acreditamos que não foi uma boa escolha. O terreno tem um declive acentuado e suspeitamos, inclusive, que a enxurrada já tenha contaminado uma das três nascentes da fazenda’’, avalia Paulo, outro filho de Almeida Neto.
No ano passado, os irmãos foram multados pelo IAP por fazer uma roçagem sem autorização em torno de uma mata de 95 hectares existente na propriedade. ‘‘Fizemos esta roçagem para impedir incêndios na mata. Queremos este mesmo rigor por parte das autoridades neste abuso que estamos denunciando’’, diz Paulo.

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