‘‘Depois de 33 anos,
está na hora de parar’’
Numa só canetada, o delegado-geral da Polícia Civil do Paraná, Artur Braga, pediu exoneração do cargo, férias e aposentadoria. Agora, para ele, polícia é assunto apenas de delegado aposentado, longe dos tiroteios dos bastidores - estes às vezes mais desconfortáveis e desconcertantes que os travados com bandidos.
Esquivo, Braga negou ter sido abatido por setores da polícia que queriam derrubá-lo. A um amigo delegado, disse ontem que já estava ‘‘de saco cheio’’, leia-se esgotado de enfrentar de alegadas fofocas de importantes gabinetes a ações na justiça para impedir as remoções de delegados e investigadores que promovia.
Localizado ontem à tarde pela Folha, por telefone, Artur Braga foi diplomático e às vezes evasivo ao comentar sua saída da Polícia Civil. Mas permitiu-se uma provocação de origem familiar: ‘‘Perguntem à minha mulher qual é o dia mais feliz de sua vida.’’ Segundo ele, sua saída se deu, principalmente, a razões de ordem pessoal. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.
Folha - É verdade que o sr. saiu por causa de liminares que derrubavam remoções de delegados e investigadores?
Braga - Todas as remoções que promovi foram por interesse da administração. Fica difícil trabalhar se a cada medida tomada o servidor público se sente atingido e resolve recorrer à Justiça. Mas o caso mencionado não foi determinante.
Folha - O sr. recebia muitas pressões?
Braga - O que acontece é que já estava cansado de brigar. Uma hora é com a Justiça, outra é com políticos que querem influir em nomeações. Quero ressaltar que não é regra geral, mas tive problemas com alguns deputados (interrompido, recusa-se a dar nomes) que insistiam em querer dar palpites, em nomear delegados. Estava cansado de ter de discutir com deputado que não entende de polícia.
Folha - O sr. não é amigo do deputado Aníbal Khury, presidente da Assembléia? Ele pode ter sido seu padrinho.
Braga - Sou amigo do Aníbal há 30 anos, estudei com um filho dele. É claro que, como sou amigo, ele deve ter ajudado. Não posso impedi-lo de ir ao governador para colocar meu nome. Do Aníbal só posso abrir a boca para elogiar, e ponto. Mas quanto a uma indicação política, a diferença é que sou delegado de carreira, com uma história na polícia, e isso deve ser levado em conta, deve ser respeitado.
Folha - É verdade que havia uma queda-de-braço entre o sr. o delegado do Cope Ricardo Noronha?
Braga - O delegado Noronha foi colocado no Cope à época pelo então secretário da Segurança Cândido Martins de Oliveira. Trata-se de um bom operacional, mas discordo de sua maneira de trabalhar.
Folha - A corrupção na polícia está sendo combatida como deveria?
Braga - Em meus 18 meses de gestão foram colocados na rua 20 maus policiais. Pelo volume de processos disciplinares ainda é pouco, mas os acusados têm direito a ampla defesa e ao contraditório. Os delegados que comprovadamente praticaram atos de corrupção foram todos afastados e respondem a processo na Corregedoria e no Conselho da Polícia Civil.
Folha - Como é seu sucessor, o delegado Roberto Nascimento?
Braga - É meu amigo. Trata-se de um policial decente, inteligente e competente.
Folha - O que o sr. vai fazer daqui para a frente?
Braga - Depois de 33 anos de polícia, está na hora de parar. Resolvi me aposentar para cuidar dos meus interesses particulares e de minha família. Mas se alguém perguntar, respondo: começaria tudo de novo. Deixo a Polícia Civil do Paraná melhor do que era e tenho certeza que com meu sucessor ela vai melhorar mais ainda.

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