Depois da cirurgia, estudante leva vida normal
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domingo, 24 de novembro de 1996
Lorena Aubrift Klenk 
Quem vê pela primeira vez Daniela Papaleo Salenave, uma jovem morena e bonita, não pode imaginar os dramas pelos quais ela já passou em seus 24 anos de vida. Vítima de leucemia mielóide aguda aos 19 anos, interrompeu os estudos no 2º grau para enfrentar uma desgastante rotina em consultórios médicos e hospitais.
O sofrimento de Daniela e da família - o pai consultor de empresas, a mãe dona-de-casa e uma irmã três anos mais nova - começou com sessões de quimioterapia que duraram dois meses e derrubaram todos os cabelos da paciente. As chances de sobrevivência eram de apenas 10%. Estressado, o pai de Daniela sofreu um enfarte e também precisou ser internado.
Meses depois, o insucesso do tratamento levou os médicos a indicarem o transplante de medula óssea como última alternativa. Daniela teve sorte: sua única irmã apresentou compatibilidade e foi a doadora. Quatro anos depois do transplante, Daniela leva uma vida absolutamente normal. Está no 3º ano da faculdade de Comércio Exterior, vai a festas e shows, estuda inglês e planeja morar no exterior depois de se formar.
Daniela tem namorado e, no futuro, quer casar e ter filhos. Ela sabe que os tratamentos a que se submeteu podem inviabilizar esse último desejo, mas prefere lembrar os casos de homens e mulheres que mantiveram a fertilidade e tiveram filhos depois da quimioterapia. Tive uma experiência horrível, mas sempre fui muito positiva e aprendi a valorizar ainda mais a vida, diz Daniela.
Ela ainda vai ao Hospital de Clínicas da UFPR uma vez por ano, para exames de rotina. Nos corredores do ambulatório da Unidade de Transplante de Medula Óssea, encontra velhos conhecidos e pacientes que ainda estão no início do caminho.
É o caso de Thaís Oliveira, de apenas um ano e 11 meses, transplantada há 57 dias. Thaís é portadora de anemia aplástica severa, uma deficiência que impede o organismo de produzir plaquetas. Thaís, a mãe e um irmão de nove anos - que foi o doador - vieram de Santa Cruz do Sul (RS). Sem recursos financeiros, estão alojados na sede da Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia, onde podem tomar todos os cuidados necessários a um recém-transplantado.
Thaís tem que usar máscara toda vez que sai de casa, não pode tomar sol nem chuva nem ter contato com outras crianças. Também não pode comer nada cru: até pães, bolachas e chocolates têm que passar pelo forno. Às vezes vamos ao mercado e ela quer pegar uma fruta, um doce e tenho que negar, conta a mãe, Irani Oliveira, 31 anos.
Mas ela sabe que todo o sacrifício vale a pena. Com o transplante, as chances de Thaís sobreviver subiram de zero para 70%. Ela ainda terá que ficar em Curitiba até completar cem dias de transplante, mas antes vai passar o Natal em casa. Máscaras e restrições alimentares vão acompanhar Thaís por pelo menos cinco meses; se tudo correr bem nessa fase, ela será uma criança normal.


