A clínica Movimento de Libertação da Vida (Molivi) não usa somente médicos e enfermeiras especializados na recuperação de dependentes. Usa também o trabalho de ‘‘consultores’’, pessoas que em alguma época de suas vidas desenvolveram a dependência por drogas e depois conseguiram se recuperar com ajuda de centros especializados ou de entidades como a A.A. (Alcoólicos Anônimos) e N.A. (Narcóticos Anônimos).
‘‘A recuperação dura a vida toda porque a doença não tem cura. Para se manter longe das drogas, o dependente tem que se cuidar, fazer terapias, frequentar AA e NA. Não dá pra dar moleza, não’’, diz o dependente e hoje pastor da comunidade evangélica El Shaday de Maringá, Celso Luís da Silva, 46 anos.
Ele trabalhou de 1980 a 1987 no Molivi como consultor. Foi lá que iniciou seu tratamento. Veio do Rio de Janeiro para Maringá exclusivamente para se tratar. Hoje trabalha o dia inteiro, na igreja ou nas casas das famílias de classe média baixa do bairro Jardim América.
Silva usou cocaína e maconha durante 15 anos, enquanto morou no Rio de Janeiro. ‘‘Foi pura perda de tempo. Não ganhei nada. Perdi empregos e não estudei. Perdi o respeito pela família, pelos amigos e por mim mesmo. Perdi a minha dignidade. Cheguei até a pensar em morrer. Mas o mesmo Deus que nos criou é o mesmo que pode nos libertar. Acreditei nisso, comecei a mostrar e a gostar dos meus valores, minha alta estima cresceu e eu consegui parar’’.
O dependente ficou nove meses internado no Molivi. A clínica não usa tranquilizantes, como as de Curitiba e São Paulo. ‘‘Foram cinco dias que jamais vou esquecer. Nunca passei tão mal, nunca tive dores de cabeça tão fortes e tanta insônia. Mas felizmente encontrei pessoas dispostas a me ajudar. Foi o que me salvou’’.
Nas suas andanças pelo Jardim América, Silva conversa com as famílias que têm problemas relacionados a drogas. ‘‘Oitenta por cento delas têm o pai que bebe. E aí adoece todo mundo porque a família acaba sendo mal vista no bairro, os filhos sofrem discriminação na escola, os pais não têm mais autoridade dentro de casa’’.
Silva reclama da falta de campanhas anti-drogas e diz que no Brasil a propaganda do álcool é muito forte: ‘‘É também uma questão de formação cultural. Aqui bebemos antes de dirigir, aqui se vende álcool nas estradas’’.

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