Denúncia contra MST é desmentida
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quinta-feira, 31 de agosto de 2000
Paulo Pegoraro De Cascavel 
Eliane Prado da Silva Carli, 16 anos, desmentiu ontem em Cascavel acusações feitas por seus pais, Jovelino da Silva, 61 anos, e Maria da Silva, 50, de que ocorreriam crimes como estupro de menores, tortura, cárcere privado e existência de armamento pesado no acampamento da área denominada Bacia, no município de Quedas do Iguaçu (165 km a leste de Cascavel). É o maior acampamento do Estado, com 1,2 mil famílias.
A própria Eliane negou termos de depoimento que deu à Polícia Civil de Quedas do Iguaçu, na época na presença da mãe, relatando os supostos crimes. Segundo ela, o depoimento foi redigido pelo próprio delegado, Ítalo Biancardi Neto. O delegado foi procurado ontem pela Folha mas não retornou os recados. Eliane contou que estava assustada, porque nunca havia ido a uma delegacia, e apenas concordava com o que o delegado dizia. Ela afirma que assinou o termo de declaração sem lê-lo.
Eliane está grávida de seis meses e esteve ontem em Cascavel, acompanhada do marido Valdecir Carli, 21 anos, e de Claudemir Torrente de Lima, 19 anos, um dos coordenadores do acampamento. Claudemir ficou preso por 23 dias em função das declarações de Jovelino e Maria da Silva. As acusações motivaram 22 mandados de prisão contra integrantes do acampamento, dois deles cumpridos. Os pedidos de prisão feitos pelo delegado se basearam na Lei de Segurança Nacional. Também esteve em Cascavel a advogada do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Andréia Indalêncio.
As denúncias foram feitas por Jovelino e Maria em 20 de maio, no 6º BPM de Cascavel. O casal afirmou que havia sido expulso do acampamento por ter tomado conhecimento dos crimes. Dias depois, além de Eliane, outras três menores que haviam morado com os pais no acampamento estiveram na delegacia de Quedas do Iguaçu confirmando as acusações. Nenhuma delas se disse vítima de violência. As três revelaram depois que Maria havia oferecido R$ 10,00 a cada uma para fazer as acusações.
Andréia Indalêncio relatou ontem que as três menores e Eliane se dispuseram a dar novos depoimento, negando o que haviam declarado. Mas o delegado se recusou a ouvi-las, mesmo com solicitação do Ministério Público. As três menores negaram o depoimento em declaração pública registrada em cartório. Eliane deve fazer o mesmo ainda esta semana.
Esta foi apenas uma das excrescências cometidas pelo delegado, além do abuso de autoridade e outras atitudes que demonstram ser ele um perseguidor declarado do MST, disse Andréia. Segundo ela, advogados do MST têm enfrentado dificuldades para acompanhar o caso na esfera policial. A advogada disse que os fatos já foram denunciados à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e à presidência nacional da Ordem dos Advogados do Brasil.
Eliane afirmou que a mãe dela ajudou a armar tudo. Segundo ela, Maria sabia o dia em que a filha sairia do acampamento para fazer exames médicos na cidade. Ela avisou a Polícia e, quando passei na casa dela, sem encontrá-la, apareceu um policial que me levou à delegacia, relatou Eliane. Ela alega não saber por que sua mãe agiu assim. Um dos coordenadores estaduais do MST, Rogério Mauro, especula que Jovelino e Maria da Silva tenham sido laranjas (disfarçados de sem-terra), introduzidos no acampamento pela Polícia ou latifundiários para criminalizar o movimento. Eliane revelou que, antes de ir para o acampamento, o pai consertava fogões na cidade.


