Dentro das casas atingidas não sobrou nem a compra do mês
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sábado, 25 de janeiro de 1997
Edmara Michetti 
Dorico da SilvaAmargo retorno Moradores carregam objetos, calculam o que foi perdido e tentam retomar a vida normal após as enchentes
Se sair de casa quando a água começou a subir foi difícil, pior foi voltar e ver que não sobrou nem a compra do mês para fazer o almoço. Depois de verem as casas invadidas pelo rio Tibagi, ontem foi dia de voltar, contabilizar os prejuízos e começar tudo de novo para os moradores da vila Frederico em Jataizinho (21 quilômetros a leste de Londrina). O bairro foi um dos mais atingidos da cidade.
Pelas ruas do bairro a cena era de uma grande mudança. Enquanto os colchões e móveis que sobraram secavam na frente das casas, os moradores retiravam a lama e lavavam tudo - desde a parede até o chão -, para guardar o resto da mobília.
Na esperança que o vizinho tivesse mais sorte, a diarista Vera da Silva, 50 anos, levou o que pôde para lá. Levei comida, roupa de cama e de vestir, mas lá também encheu de água, lamenta. Sobrou a roupa do corpo. Até a cesta básica, que tinha acabado de chegar, ficamos sem.
Enquanto limpava a casa, com a ajuda de uma das filhas, Vera ainda não sabia ontem à tarde como a família dormiria. As camas derreteram e o colchão, mesmo que seque, fica com um cheiro horrível. Não dá para usar mais, disse. A situação afetou o desempenho do marido de Vera que trabalha de frentista num posto de combustíveis em Londrina. Ele chegou dizendo que nem conseguiu fazer o serviço direito, esquecendo até de ligar a bomba na hora de abastecer, contou.
O que Vera quer agora é tentar esquecer a enchente que acabou mudando os planos do casal. A casa onde moram é alugada, mas a família pretendia comprá-la. A gente ia fazer um sacrifício danado para pagar, mas agora só queremos sair daqui. O resto Deus é quem sabe.
Dorico da SilvaO dia foi de muito trabalho e tristeza para os moradores atingidos pela cheia
A situação da aposentada Alzira Leandro, 67 anos, não é diferente. Enquanto o marido, o aposentado Vicente Leandro de Souza, 76, circulava sem rumo pela casa vazia, ela olhava o que sobrou. Na casa do casal, onde também moram um filho e uma neta, foi possível salvar a geladeira, uma televisão em branco e preto e uma estante. Estava sozinha na hora que a água começou. Os vizinhos ajudaram, mas não deu para levar muita coisa, disse a aposentada.
Mesmo sabendo, logo ao sair, que sobraria pouco depois da enchente, a aposentada foi surpreendida ao voltar para casa. Até a lata de açúcar estava cheia de água. Dá uma tristeza. Moradora no local há 11 anos, Alzira afirmou que apesar de já ter passado por outras cheias do Tibagi, a casa nunca havia sido atingida. Para dormir, ela mostrou uns pedaços de espuma que teriam que ser divididos entre os quatro moradores. Não bastasse a desgraça na casa de Alzira, um dos filhos casados também teve a casa alagada pelas chuvas. Na casa dele também não sobrou nada, contou.
Os moradores de chácaras da avenida Beira Rio continuavam precisando de um bote para chegar em casa ainda ontem à tarde. Uma das chácaras teve parte da casa derrubada. O caseiro que mora no local não estava no momento. Ninguém se machucou.


